Festival de Curitiba aponta volta à dramaturgia
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terça-feira, 21 de março de 2000
Por Beth Néspoli, enviada especial 
Curitiba, 22 (AE) - O 9.º Festival de Teatro de Curitiba entra na sua reta final, depois de oito dias de uma intensa programação prevista para terminar no domingo. Se novos caminhos não foram apontados, uma tendência já detectada na cena brasileira foi reforçada pela programação; um movimento de volta à dramaturgia.
Sinais desse movimento já apontaram no fim do ano passado, na escolha de textos feita por diretores como Antunes Filho, com "Fragmentos Troianos", adaptação da tragédia de Eurípides, e José Celso Martinez Corrêa, com a montagem de "Boca de Ouro", de Nélson Rodrigues.
E aparece também em muitas da estréias deste início de ano em São Paulo, entre elas "Visão Cega", de Brian Friel - que estréia no sábado no Teatro da Cultura Inglesa, sob direção de José Renato - e "Fábula de um Cozinheiro", de Sam Sheppard e Joseph Chaikin, dirigida por William Pereira, em cartaz a partir do dia 2, no Teatro Hilton: dois espetáculos apoiados principalmente na força do texto.
Nessa mesma linha se enquadram duas boas montagens apresentadas na mostra oficial do 9.º Festival de Teatro de Curitiba: "Ricardo III", de Shakespeare, com o grupo mineiro Odeon Companhia Teatral, e "Henrique IV", de Pirandello, com a carioca Cia. do Pequeno Gesto.
Espetáculos que comprovam que o grande desafio hoje é superar as limitações dos atores disfarçadas por anos de experimentação de linguagem e contar com clareza, emoção e inteligência uma boa história no palco. Desafio que, se alcançado, recebe o aplauso caloroso do público.
Os diretores Yara Amaral, em "Ricardo III", e Antonio Guedes, em "Henrique IV", optaram pela síntese nos ótimos cenários e figurinos que, certamente, não por coincidência, são assinados por Daniela Thomas e André Cortez em ambas as montagens. A idéia de síntese orienta toda a encenação, apoiada numa interpretação nem naturalista nem engessada ou grandiloquente, como pode ocorrer nas vezes em que o ator é obrigado a dizer uma frase mais longa ou elaborada.
Se a excelente atuação de Jorge Emil no papel do perverso Ricardo compensa um elenco irregular, em "Henrique IV" a qualidade do conjunto faz chegar cristalino até os ouvidos do público o difícil e fascinante texto de Pirandello. Duas montagens que merecem ser vistas.
Talvez o público paulistano veja em breve A Máquina", montagem de João Falcão, com cinco atores baianos e pernambucanos, que também integra a mostra oficial. "Queremos que São Paulo seja nossa próxima parada e o mais breve possível; estamos negociando", diz Falcão, após a estréia aplaudidíssima no festival.
Mesmo ele, uma espécie de mago dos efeitos eletrônicos no palco, apoiou a encenação no ótimo texto que tinha em mãos, uma fábula retirada do livro homônimo de sua mulher, Adriana Falcão.
Manipulação - Talentoso na manipulação dos recursos que o palco oferece, o diretor utilizou-os todos - desta vez sem nem precisar pedir emprestado do cinema - para contar a história de Antônio que decide mudar o mundo para dá-lo de presente à namorada Karina, mesmo correndo risco de vida.
Falcão construiu uma arquibancada circular, que divide o público em quatro grupos. A encenação transcorre na arena central, que se move acionada pelos pés dos atores: quatro Antônios e uma Karina, que nos narram a história. Os efeitos de iluminação e som são bastante sofisticados e alguns deslumbrantes.
Ainda assim, o aparato cênico não foi o que ficou na mente da estudante de Artes Visuais curitibana, Maria Rita Torres, de 23 anos, que ao fim do espetáculo permaneceu um bom tempo sentada na arquibancada, enquanto o público ia saindo, embevecida com o que ouviu. "O que mais gostei é que não tem uma grande produção: é simples e tão lindo."Um grande elogio, se levarmos em conta que, pelo aparato cênico, era sim uma das maiores produções do festival.
Miscigenação - A montagem presenteia ouvidos não só com um texto poético, mas com a deliciosa musicalidade da fala nordestina autêntica dos atores, muito diferente do forjado sotaque global. É tambem muito bom ver um elenco cujo biótipo faz jus à real diversidade de um país cuja marca é a miscigenação. E, para completar, tanto "A Máquina quanto Henrique IV" provaram que o ator negro pode e deve estar em cena em qualquer papel. Tudo o que o público precisa para encantar-se é talento e verdade no palco.


