Brasília, 19 (AE) - Sede do mais importante festival de cinema brasileiro no País (Gramado virou festival de cinema latino), Brasília ganha, na semana do seu 39.º aniversário, o 1.º Festival Internacional de Cinema da cidade. De amanhã (20) até o dia 2, serão exibidos 24 filmes de 16 países. Todos, à exceção do clássico "Meu Tio", de Jacques Tati, são produções recentes, inéditas em Brasília e, na maioria, dirigidas por jovens cineastas independentes. O objetivo é inserir a cidade no circuito das grandes mostras nacionais e internacionais, a exemplo do que já acontece com São Paulo e Rio.
Para o cinéfilo brasiliense, será uma festa. A seleção de filmes, todos longos, foi feita pelos jornalistas Carlos Marcelo e Gustavo Galvão, privilegiando a produção independente mundial. Em caso contrário, o festival estaria apenas reforçando o senso comum que domina amplamente as salas de exibição no País. Exibindo preferencialmente as obras de diretores independentes, Brasília oferece um diferencial, mostrando filmes a que o público dificilmente poderá assistir fora do evento.
Nove dos 24 títulos vêm do exterior exclusivamente para passar em Brasília. São títulos como "Pizza, Birra, Faso", de Bruno Stagnaro e Israel Caetano, que foi um dos vencedores do Festival de Gramado do ano passado, "Let the Devil Wear Black"
dos Estados Unidos, "The Acid House", da Inglaterra, e "Silvia Prieto", da Argentina. Outros oito serão apresentados em primeira mão, antes de entrar em exibição no mercado nacional. Nesta categoria se inclui o filme brasileiro que inaugura a mostra. E há o caso de produções estrangeiras já compradas para o País, mas que terão sua estréia em Brasília, como "Uma Noite após a Guerra", de Ritty Panh, um produto da associação de talentos cambojanos e franceses. Realizada em duas das três salas do Cine Academia, localizado na Academia de Tênis (um dos hotéis luxuosos da cidade), ela não terá caráter competitivo nem júri oficial, embora deva ser atribuído no fim um prêmio do público. É uma mostra assumidamente informativa, que pretende divulgar as novas produções (e tendências) do cinema mundial. Nacional - O Brasil estará representado pelos filmes de abertura e encerramento. O primeiro é "Até Que a Vida nos Separe", "uma declaração de amor a São Paulo", como o define o próprio diretor, o estreante José Zaragoza, e o segundo, "Um Copo de Cólera", de Aluizio Abranches, baseado no livro de Raduan Nassar. Quando o segundo encerrar a programação, já terá estreado em São Paulo e no Rio (a data prevista é 30 deste mês).
"Um Copo de Cólera" foi considerado pelo diretor da mostra Panorama, no Festival de Berlim, "uma das maiores contribuições à história do cinema sobre o universo masculino". Com esta declaração, Wieland Speck justificou a inclusão do filme de Abranches na seleção berlinense. Interpretado por Alexandre Borges e Júlia Lemmertz, é um dos lançamentos mais esperados da atual safra da produção nacional. O terceiro filme brasileiro a integrar a mostra brasiliense é "A Reunião dos Demônios", de Cecílio Neto.
Estão previstas algumas manifestações paralelas: o Encontro Internacional de Novos Realizadores vai reunir diretores de todo o mundo que foram convidados para o evento, como o argentino Salvador Roseli (de Mala Época) e o alemão Edward Berger (de Gomez). Haverá também um painel sobre a distribuição cinematográfica no Brasil, com a participação de diretores de empresas que se destacam por dar prioridade à produção independente e artística, como a Pandora Filmes (André Sturm), a Lumire (Paulo Braga), a Imovision (Jean-Thomas Bernardini) e Filmes da Mostra (Leon Cakoff).
Haverá ainda uma homenagem ao ator e diretor francês Jacques Tati, morto em 1982. Ele será lembrado pela exibição de um de seus melhores filmes, "Meu Tio", vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes de 1958 (naquele ano, o russo Mikhail Kalatozov ganhou a Palma de Ouro com Quando Voam as Cegonhas). Especialmente convidada, a filha do inesquecível Monsieur Hulot, a cineasta Sophie Tatischeff, fará uma palestra sobre seu pai e logo em seguida apresentará seu filme "Le Comptoir de Marie".

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