Festival de Cinema Ambiental começa amanhã em Goiás
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segunda-feira, 31 de maio de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 01 (AE) - Com a exibição do primeiro longa-metragem em animação brasileiro, "Sinfonia Amazônica", de Amélio Latini Filho, começa amanhã, às 19h30, em Goiás Velho, o 1º Fica (Festival Internacional de Vídeo e Cinema Ambiental). O evento, coordenado pelo cineasta João Batista de Andrade (de "O Homem que Virou Suco" e "Doramundo"), prossegue até domingo e apresenta mostra competitiva com 37 títulos, de 13 países diferentes.
Andrade resolveu inovar, abolindo a hierarquia entre suportes ou bitolas: "Tudo o que pintar na tela é filme, não importa se feito em vídeo ou película, se em 35 ou 16 milímetros", diz. Tanto é que o prêmio principal do certame, o Cora Coralina, será atribuído ao melhor trabalho, seja ele vídeo ou película. Virão obras de países como áustria, Inglaterra, França, Portugal, Dinamarca, Holanda, Espanha, Moçambique, Estados Unidos, Venezuela e Argentina. Oito Estados brasileiros participam do Fica, com alguns títulos já conhecidos como "O Cineasta da Selva", de Aurélio Michiles, "Terra do Mar", de Eduardo Caron e Mirella Martinelli, e "No Rio das Amazonas", de Ricardo Dias.
Há muita novidade também, principalmente no suporte vídeo. Mas a organização resolveu, nesta primeira mostra, acolher trabalhos com até quatro anos de realização. "Não sabíamos o que viria pela frente", admite o cineasta. A primeira impressão, quando foi convidado para organizar o encontro, é de que as atividades do audiovisual, ligadas ao meio ambiente, eram muito dispersas, divididas entre ONGs de orientação diversas, políticas governamentais contraditórias, etc. Por isso tinha medo que o número de inscrições fosse muito baixo. Estava enganado. Ficou surpreso quando o prazo para inscrições se encerrou e podia somar 150 trabalhos disputando uma vaga. "Na verdade, o festival cresceu mais do que imaginávamos possível", diz Andrade.
Além do grande número de trabalhos inscritos, haverá também uma mostra de clássicos do cinema ambiental. Aliás, um desses clássicos estará encerrando o festival, no domingo à noite: "Dersu Uzala", do mestre japonês Akira Kurosawa, morto no ano passado. "A presença desse filme mostra que tentamos tratar a temática ambiental do modo o mais amplo possível." De fato, o poema visual de Kurosawa não é, digamos assim, um libelo preservacionista em linha reta; mostra um personagem que só faz sentido no contato com a natureza e desmorona quando se afasta dela.
Outros filmes emblemáticos do cinema ambiental foram selecionados pelo próprio organizador. Entre eles, "Vila Boa de Goiás", de Vladimir Carvalho, e "Seu Ramolino", de Marcos Mendes. Mas a grande atração nesse segmento é mesmo "Sinfonia Amazônica", que abre o evento. O filme custou seis anos de trabalho ao seu realizador. Sua exibição significa, na prática, uma reestréia, depois de anos de esquecimento. "Quem o recuperou foram os técnicos da Cinemateca Brasileira, em São Paulo", informa Andrade.
Atividades paralelas - O crescimento do festival ocasionou outro fenômeno: de certo modo, a mostra saiu do âmbito audiovisual, no sentido restrito do termo. Ultrapassou-o e transformou-se em motivo para uma vasta celebração da cultura goiana. Claro, cinema e vídeo estarão no centro de tudo. Mas, ao lado deles haverá muita coisa para ver, ouvir e fazer.
Por exemplo, o artista plástico Siron Franco, o mais conhecido do seu Estado, promoverá um workshop do qual participarão crianças do local. Estão programados também espetáculos com o grupo Martin Cererê e a companhia de dança Quasar, que apresenta a coreografia "Versus". Serão realizados shows musicais, com apresentação do violonista Reinaldo Reis e a cantora Eli Camargo e Banda Kalunga. Vários livros serão lançados durante o evento, como "Calada Nudez", de Miguel Jorge, e "Bennio, da Cozinha para a Sala Escura", do crítico de cinema Beto Leão.
O cineasta João Batista de Andrade, hoje morador em Goiás (onde rodou seu filme mais recente, "O Tronco", baseado no romance do goiano Bernardo Élis) explica o rumo que tomou o 1º Fica. "Quando vim morar aqui descobri uma cultura muito forte, de raiz, espantosamente vigorosa e diversificada", diz. Contribui também para o crescimento do festival do fato de que a cidade de Goiás Velho, fundada no século 17, estar pleiteando, na Unesco, status de patrimônio da humanidade, como já ocorre com outras cidades brasileiras. "Além disso, o sucesso do festival pode ser um ponto de partida para a instalação do Pólo de Cinema de Goiás, segundo planeja o governador Marconi Perillo."
O prestígio do festival pode ser avaliado pela formação do júri que irá escolher os trabalhos vencedores. Virão de fora o alemão Peter Schumann e o cubano Rigoberto Lopez. Schumann é há vários anos diretor do Fórum do Festival de Cinema de Berlim; especializado em cinema latino-americano, escreveu um livro sobre o assunto, tido como clássico. Lopez é documentarista vencedor. Ganhou o Festival de Havana de 1997 com seu "Yo Soy del Son a la Salsa". Virão também para compor o júri Elena Vilardell, secretária da Ibermédia, um fundo de fomento à produção cinematográfica da América Latina; Washinton Novaes, jornalista ligado a temas ecológicos, diretor da série de TV "Xingu"; Lourival Belém Júnior, cineasta goiano; Lizandro Nogueira, professor de Comunicação da Universidade Federal de Goiás, e Azilene Kaigang, socióloga do Centro de Defesa dos Direitos Indígenas, da Funai.


