FESTIVAL DE CANNES - Tarantino e seu novo jogo de massacre
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terça-feira, 22 de maio de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Está ficando difícil encontrar espaço por aqui até para pensar. O festival já vai adiantado em sua segunda e derradeira semana, e a cada dia as sessões no Palais, a congestionada sala de imprensa e todos os locais públicos parecem ficar ainda mais lotados. Mas apesar da falta de espaço e do calor sufocante que finalmente chegou à Côte d'Azur, o humor coletivo é bom, muito por conta do clima de festa pelos 60 anos do Festival.
Um dos momentos mais esperados da mostra competitiva, a exibição de ''Death Proof'', aconteceu afinal para jubilo de uma alvoroçada facção da crítica mundial.
A nova extravagância de Quentin Tarantino, que depois de um auspicioso início de carreira há quinze anos com ''Cães de Aluguel'' e logo em seguida uma Palma de Ouro com ''Pulp Fiction - Tempo de Violência'', recebeu a um só tempo aplausos frenéticos e vaias consistentes.
''Death Proof'' é uma das duas partes do projeto que Tarantino chamou de ''Grindhouse'' - o nome se refere a uma espécie de velho cinema nos EUA, ancestral do drive-in que também já não existe, o equivalente ao nosso popular ''poeira''. A outra parte é ''Planeta Terror'', dirigido por Robert Rodriguez. Os dois foram lançados num só programa no mercado americano, quase quatro horas de duração, fator que pesou para o fraco desempenho de bilheteria. Na Europa, América Latina (Brasil inclusive) e outros mercados serão dois lançamentos separados.
O filme é um produto de gênero, estilo anos 1970, cuidadosamente preparado por Tarantino na tradição dos B-movies, aqueles produtos de baixo orçamento, efeitos risíveis, argumento pedestre. Filme transbordante de citações cinéfilas, ''Death Proof'' divide suas duas horas entre muita conversa fiada e ação tão incontrolável quanto sanguinolenta.
''Uma história muito simples e cheia de ação'', disse Tarantino na entrevista coletiva, onde muitos coleguinhas de ofício transformaram suas tarefas de casa em comprometedora tietagem. Diz ele que trabalhou cerca de cinco anos no projeto, e que o que fez foi ''a reinvenção dos filmes daqueles anos 1970, a fim de excitar ao máximo o espectador''.
Na verdade, embora o diretor rejeite a definição, ''Death Proof'' é um monumental filme-trash, um indisfarçável exemplar de cinema ''gore'' (aquela espécie de terror em que o sangue jorra em abundancia, há membros amputados em festival de explicitude generalizada). Na trama, dois times de mulheres bonitas e independentes se defrontam na estrada com um assassino psicopata armado com um bólido sobre quatro rodas. Ele liquida sem dó o primeiro mas se dá muito mal com o segundo.
Ainda bem que Tarantino reconhece que não há qualquer vestígio de psicologia na desenfreada conversa entre as mulheres, ''apenas registros ordinários sobre o dia-a-dia, a fossa, o amor, a musica, o cinema e a cultura pop'', afirmou ele aos jornalistas. Como resumo da ópera, ''Death Proof'' não passa de um exercício de malabarismo estiloso, um demonstrativo de proezas com interesse limitado. Para satisfazer principalmente quem o imaginou. E pior, o executou.
Sala BuÀuel repleta ontem, durante a entrevista coletiva para o lançamento oficial e histórico da World Cinema Foundation, sob os auspícios do Festival de Cannes. Se até agora o trabalho da Federação Internacional de Arquivos do Filme vinha tendo amplo reconhecimento no universo do cinema, esta condição deve melhorar ainda mais. A partir de uma idéia de Martin Scorsese, os cineastas decidiram juntar esforços e criar a Fundação do Cinema
Mundial.
A entidade nasce em modelo de associação não-lucrativa, com a finalidade de oferecer suporte financeiro para a restauração e distribuição de filmes emtodas as partes do mundo, mas em particular na África, América Latina, Ásia e Europa Central. Nesta edição de Cannes, três filmes restaurados e exibidos já fazem parte do projeto: ''Transes''(1981), de Ahmed El Maanouni, apadrinhado por Scorsese; o brasileiro ''Limite'' (1929), de Mario Peixoto, com apresentação de Walter Salles, e ''Padurea Spinzuratilor'' (1964), de Liviu Ciulei, apresentado pelo critico romeno Cristi Puiu.
Embora atrasada por problemas técnicos no sofisticado equipamento de som - mesmo Cannes tem lá seus momentos de terceiro mundo -, a Lição de Música ministrada pelo compositor Howard Shore, com participação especial do realizador David Cronemberg (os dois vêem de longa parceria), foi outro momento mágico do Festival. Especialmente quando Shore falou sobre o processo de criação da trilha de ''O Senhor dos Anéis'', considerada pelos especialistas uma irretocável sinfonia de musica erudita contemporânea.


