FESTIVAL DE CANNES - Serial killer a serviço do bom cinema
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quinta-feira, 17 de maio de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Passada a agitação das primeiras horas e cumprido a rigor o ritual do tapete vermelho de abertura desta invariavelmente glamourosa série de montée de marches, o 60º Festival de Cannes agora abriga a rotina do vaivém ensandecido de jornalistas e personalidades, a circular sem descanso entre as muitas salas do Palais e adjacências, de olho no relógio e na programação nem sempre ideal, mas aquela humanamente possível. Desde ontem foi dada a partida em todas as mostras, incluindo as paralelas Semana da Crítica e Quinzena dos Realizadores, sessões de meia-noite, filmes hors-concours, Cannes Classics. Uma cesta nada básica de ofertas, cerca de 80 títulos para consumo em 10 dias.
O cinema dos EUA nestes últimos anos tem chegado à mostra competitiva em quantidade até questionável, mas menos mal porque sempre através do apelo de cineastas não apegados à insípida rotina hollywoodiana. É o caso de David Fincher, elevado à categoria de cult a partir do thriller ''Se7ven'' e do polêmico ''Clube da Luta''. O diretor trouxe a Cannes um outro thriller sobre assassinatos em série, ''Zodiac'', que deve estrear aí no Brasil no fim deste mês ou início de junho.
Não resta dúvida de que este é o filme mais maduro de Fincher, embora o menos ambicioso do ponto de vista estilístico - e paradoxalmente é um exercício de cinema feito com implacável elegância. É uma espécie de quebra-cabeças noir. Seu enfoque não sensacionalista, ao contrário de ''Se7ven'', decididamente não vai agradar aos fãs de imagens hardcore e conexos, que vão se decepcionar com a natureza metódica do filme, sua rotina até mesmo burocrática em certos momentos. A bilheteria americana - o filme foi lançado em março nos EUA -, apenas com U$ 33 milhões até agora, dá bem a medida das necessidades ianques de entretenimento a serem preenchidas. Como a gratuidade mórbida de ''Jogos Mortais'' e congêneres, a municiar massacres universitários.
''Zodiac'' é um denso e ao mesmo tempo hipnótico relato sobre a série de infames e insolúveis assassinatos que abalaram a Califórnia no final dos anos 1960 e durante boa parte dos 70. O filme adota duas estratégias narrativas: parte dele mostra o conjunto de procedimentos investigativos da polícia, enquanto por outro lado o espectador acompanha o desenrolar dos fatos via procedimentos jornalísticos, também na linha investigativa e à maneira de ''Todos os Homens do Presidente'', filme de 1976 realizado por Alan J. Pakula ao qual ''Zodiac'' deve boa parte de seus muitos acertos.
Se fosse possível resumir as duas horas e trinta e seis minutos da trama em uma única palavra, esta seria com certeza obsessão. Algo que não pode ser satisfeito - descobrir a identidade do assassino e prendê-lo - vai aos poucos corroendo a alma dos principais envolvidos, policiais e jornalistas. Baseado no best-seller de Robert Graysmith (Jake Gyllenhaall), um dos principais envolvidos pela idéia fixa da busca de pistas, ''Zodiac'' revela extrema acuidade na demonstração do enorme, às vezes devastadores efeitos materiais, sociais, emocionais, psicológicos que o caso trouxe para a vida daqueles que foram a fundo na investigação.
Comparada ao teatro de sangue que o espectador se habitou a ver encenado pelos muitos subgêneros de Hollywood, a violência que se vê em ''Zodiac'' é minimalista, e por isso é assimilada naturalmente. O desenho de produção é impecável, e o clima daquele período aparece captado em preciosos detalhes, tanto nas imagens como na trilha com uma seleção de hits do rock (Boz Scaggs, Donovan, Marvin Gaye, Steely Dan). Por último, mas não menos importante, o elenco foi escolhido em momento de sublimação, com Robert Downey Jr e Mark Ruffalo em trabalhos inesquecíveis.
* O jornalista está em Cannes a convite da organização do Festival


