FESTIVAL DE CANNES - Brasil se despede bem e Palma segue indefinida
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de maio de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2* 
Mesmo fora da disputa pela Palma de Ouro, o Brasil se despediu de maneira brilhante do 60º Festival de Cannes com a exibição do longa-metragem ''Mutum'', de Sandra Cogut, na Quinzena dos Realizadores. É uma das duas mais importantes mostras paralelas do festival, e ao longo de suas 38 edições já revelou dezenas de estreantes que hoje são grandes e reconhecidos talentos do cinema mundial. A outra seção paralela e relevante de Cannes é a Semana da Crítica, para a qual foi selecionado outro longa brasileiro, ''A Via Láctea'', de outra diretora, Lina Chamie.
Recebido calorosamente pelo público que lotou a sala Miramar, ''Mutum'' trouxe a Cannes o olhar universal do escritor João Guimarães Rosa, que encontrou na roteirista Ana Luiza Martins Costa e na diretora Sandra Cogut a sensibilidade exata para a recriação de sua rica geografia física e humana.
A relação entre a exuberante, complexa literatura de Guimarães Rosa e o cinema brasileiro nunca foi das mais harmoniosas. À exceção de ''A Hora e a Vez de Augusto Matraga'' (1966), que Roberto Santos levou à tela com brio e consciente dos limites a serem respeitados no processo de adaptação sem atropelar a profusa invenção do escritor, e do interessante ''Noites do Sertão'' (1984), de Carlos Alberto Prates Correa.
''Mutum'' é um delicado retrato da infância, personificada em Thiago, o peculiar menino dos confins das Gerais que observa o mundo ao redor com a nebulosa distância que seus olhos míopes permitem. Dotado de enorme sensibilidade, ele vai aos poucos descobrindo as coisas que o cercam, o mundo dos adultos e o seu e de seus irmãos.
Sem perder a mão em momento algum, Sandra Cogut constrói um tempo e um espaço que transcendem o regional e o universal, um lugar onde as coisas nunca acontecem acontecendo. Estes limites encontrados são por assim dizer a maior homenagem que o filme faz a Guimarães Rosa, e por feliz consequência a seus leitores fiéis.
O elenco de não-atores, com destaque para os garotos Thiago da Silva Mariz e Wallison Felipe Leal Barroso, é ponto alto desta narrativa que flui sempre suave, seja na dor ou na alegria. O filme concorre ao prêmio Câmera d'Or, atribuído à melhor obra de estréia selecionada para qualquer seção do Festival.
Hoje é o ultimo dia da mostra competitiva, e amanhã acontece a solenidade de premiação. Dois filmes tentam ainda hoje oferecer argumentos definitivos para conquistar o grande premio: o japonês ''Mogari no Mori'', de Naomi Kawase, e o sérvio ''Promise Me This''. Mas se estiverem no mesmo nível dos concorrentes de ontem, da França e dos EUA, as coisas vão ficar mesmo muito difíceis para o júri. Por falta de opções definidas, é claro.
''Une Vieille Maitrasse'', filme francês de época adaptado de um romance de Barbey d'Aurevilly, escrito e dirigido por Catherine Breillat, causou constrangimento ao final da sessão para a imprensa, principalmente para os sempre orgulhosos mas habitualmente frustrados jornalistas da casa.
É a história de um jovem libertino, noivo de uma também jovem e virtuosa aristocrata. Mas ele está envolvido com sua amante já não tão jovem e bastante liberal. A diretora Breillat, com sua visão pesada, não reveste o filme de um mínimo de elegância que o tema deveria esperar.
Outro desastre foi a chegada de ''They Own the Night'', ou ''Os Donos da Noite'', como deve ser batizado no Brasil este filme dos EUA escrito e dirigido por James Gray. É um thriller policial que, pela enésima vez, coloca no foco central o tema da redenção, ou da segunda chance, tão caro a Hollywood e maximizado pelo acréscimo do fator de sangue. Mas após uma primeira meia hora até estimulante, o filme vai resvalando sem volta em direção ao drama mais raso, ao mais burocrático enquadramento nas regras convencionais.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes


