FESTIVAL DE CANNES - Aniversário de gala, belo presente na tela
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segunda-feira, 21 de maio de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2 
Domingo, 20 de maio, o Festival de Cannes recebeu o parabéns a você cantado através de imagens inesquecíveis por um conjunto de 33 vozes muito afinadas, embora um ou outro falsete logo esquecido. O presente, além da programação cumprida com luxo e charme (montée de marches de centenas de personalidades artísticas e políticas, meia hora de belíssimos fogos sobre a baía de Cannes, festa a rigor para 1.500 convidados), foi o filme-coral ''Chacun son Cinéma'', construído exatamente por 33 cineastas de muitos países. O presidente recém-eleito, Nicolas Sarkozy, embora previsto acabou não vindo e mandou a nova ministra da Cultura, Christine Albanel.
A idéia partiu do presidente vitalício da mostra, Gilles Jacob, que preferiu antes uma celebração do cinema que em torno do festival. Funcionou, porque por aqui quase nada se vê sobre auto-congratulação, memórias rançosas ou nostalgia de tempos passados. O resultado não poderia ter funcionado melhor, tratando-se de um longa-compilação. Os pequenos filmes, salvo poucas exceções descartáveis, atingem um elevado índice de aprovação de mais de 80 por cento de ótimo e bom.
E sem nenhum favor, e nem pensando em consolação pela ausência de filme brasileiro na competição oficial, a entrada de Walter Salles está entre as cinco mais inspiradas da coletânea. Mais aplaudido ao final da sessão para a imprensa, o curta, batizado como ''5.557 milhas de Cannes'', mostra dois cantadores de embolada, a dupla Caju e Castanha, diante de um cinema mais do que decadente nos confins do Nordeste. Em cartaz, ''Os Incompreendidos'', um clássico de François Truffaut premiado há cinco décadas em Cannes.
Os dois discutem simploriamente o que diabos será aquele filme. Ou o que estaria acontecendo em Cannes. Mas fazem isto cantando de improviso uma hilariante letra de embolada. Walter fez uma pequena obra-prima com muito espírito, humor, energia e engenho, e teve o cuidado de traduzir o mais fielmente possível aquilo que é dito por Caju e Castanha em relação ao cinema e a Cannes. Todos entendem, inclusive o arremate da musica, o trocadilho final com o ministro-cantor Gilberto Gil, muito conhecido na França, e com o homem de Cannes, Gil (les) Jacob.
Outros ótimos momentos ficaram por conta dos irmãos Coen, Joel e Ethan, de Takeshi Kitano, Ken Loach, David Cronemberg, Wong Kar Wai, Zhang Yimou, Alejandro IÀarritu e pelo português Manoel de Oliveira, que aos 98 anos fez um dos mais joviais segmentos. Em geral a tônica das pequenas histórias é a decadência e desintegração de velhas salas de exibição e por extensão o que o publico deve esperar do cinema de amanhã. Apesar do bom humor e do tom poético em boa parte das narrativas, numa visão de conjunto paira no ar uma inquietante interrogação.
Depois da exibição para os jornalistas, os dream-team de cineastas foi para uma entrevista coletiva. Tudo transcorria com tranquilidade, até que Roman Polanski, que fez um dos bons curtas para o filme coletivo, se irritou com a pergunta tola e inútil de uma repórter televisiva da Coréia. E saiu da sala grunhindo impropérios e batendo o pé. Que existem aqui profissionais de imprensa que importunam, são inconvenientes ou desinformados, isto não é novidade este ano em Cannes - afinal são mais de 4 mil, um recorde na cobertura do festival. Mas a atitude infantil de Polanski destoou por completo do clima festivo.
Mas à noite tudo estava sereno e pronto para a inesquecível foto de pura antologia, um momento que dificilmente será repetido em Cannes. Quem sabe talvez no centenário, em 2057...


