FESTIVAL DE CANNES - A lição de cinema do mestre obsessivo
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quinta-feira, 24 de maio de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para Folha 2 
Era mesmo de se esperar, uma multidão de devotos para a enorme Salle Debussy, local escolhido pela organização do 60º Festival de Cannes como palco de um dos mais aguardados eventos da mostra - a Lição de Cinema pelo diretor de ''Os Infiltrados''.
Foi a crônica de um sucesso anunciado, e que se pode ainda mais maximizar porque exatamente no mesmo momento, na sala de coletivas, a concorrência era das mais acirradas: todo o elenco de ''Ocean's Thirteen'' atendia a imprensa. Todo o elenco de ''Treze Homens e Um Segredo'' (título para o lançamento brasileiro, em junho) significa George Clooney, Brad Pitt, Andy Garcia, Matt Damon, Ellitot Gould, Don Cheadle, Ellen Barkin e o diretor Steven Soderbergh.
Na platéia, críticos de todas as partes e de todas as gerações, jovens cinéfilos e estudantes de cinema e colegas de profissão, ali para homenagear mestre Scorsese - entre eles um entusiasmado Quentin Tarantino, com certeza consciente de que tem ainda muito que aprender.
Conduzida por Michel Ciment, veterano crítico da revista francesa Positif, a conversa com Martin Scorsese foi por mais de duas horas fonte de inefável prazer. E para ambos os lados, já que o cineasta é reconhecidamente, desde sempre, um obsessivo pela arte de contar histórias em imagens, de discorrer longamente sobre seu ofício. E faz isso com absoluta maestria.
Obsessão, esta a palavra-guia quando Scorsese fala sobre cinema, e quando se fala de Scorsese falando sobre cinema. Quem ouve suas preleções sabe que há volúpia em suas narrativas, uma visceral tendência a um estado maníaco-obsessivo. Quanto mais velho fica, mais cresce a paixão. Paixão iniciada em sua cidade natal, Nova York, quando ele tinha três anos.
Familiarizado desde muito cedo com um fértil universo de fotogramas, Scorsese cresce com a saúde resguardada, mas com a cabeça aberta, a princípio para o melhor do cinema americano, mais tarde recebendo com prazer a decisiva influência dos principais movimentos e dos mestres do cinema europeu. Esta determinante em sua formação, de inicio autodidata, mas em seguida consolidada em quatro anos de escola de cinema, vai se refletir com enorme vitalidade em sua filmografia.
Sempre que o rumo da conversa permite, e às vezes ele mesmo conduz para este lado, Scorsese que não esconde a benéfica ''infiltração'' em sua carreira de correntes cinematográficas - a nouvelle vague na França e o neo-realismo italiano - que mudaram a face da narrativa convencional hollywoodiana, introduzindo novas formas de contar a história, seja pela alteração da dinâmica do tempo, seja pelo aprofundamento da dramaturgia dos personagens.
A conversa entre Scorsese e o crítico Michel Ciment foi ilustrada por sequências de vários filmes - ''Caminhos Perigosos'', ''Touro Indomável'', ''A Época da Inocência'', ''Depois de Horas'', ''Kundum'', ''Cassino'' , abrindo espaço para considerações e revelações artísticas de várias ordens. Como por exemplo, a dificuldade de Scorsese com a carpintaria de roteiros, com frequência trabalhando em parceria. Ou com a violência e/ou a sexualidade de seus personagens - ''nunca filmei sexo, mas ultimamente ando com algumas idéias...'', disse ele arrancando risos da platéia.
* O jornalista viajou a convite do Festival de Cannes.


