FESTIVAL DE CANNES - A dignidade de um drama francês
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de maio de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes, especial para a Folha 2)* 
A três dias do encerramento, o 60º Festival de Cannes se debate na proverbial encruzilhada da indefinição, muito frequente em mostras competitivas. Isto significa que, apesar da torcida de toda a imprensa a esta altura já trôpega, aquele filme que desequilibra o fiel da balança ainda não apareceu - por isso já se fala nas possíveis preferências do júri... Mas faltam ainda títulos assinados pelo menos por dois clássicos do festival: o russo Alexander Sokúrov e o sérvio Emir Kusturica. E ainda filmes do Japão, Coréia do Sul, um último francês e mais um americano. É esperar para ver, e ver para crer.
Os franceses voltaram ontem à competição com duas propostas diferentes entre si, mas ambas com resultados muito favoráveis. ''O Escafandro e a Borboleta'' do artista plástico e diretor Julian Schnabel (''Basquiat'' e ''Antes que Anoiteça'') é um filme que faz inteira justiça à coragem e determinação de seu principal personagem. Em 1995, o editor da revista ''Elle'', Jean-Dominique Bauby, 45 anos, foi vítima de um acidente vascular-cerebral que o levou ao coma e posteriormente o deixou com a rara ''locked-in syndrome'', que significa trancado por dentro. Em outras palavras: o cérebro funciona perfeitamente, mas o corpo não. No caso dele, sua única janela para o mundo foi o olho esquerdo. Imobilizado dentro de um escafandro (o corpo), o piscar do olho é a borboleta, que voa, mas tem vida efêmera.
É a partir literalmente deste ponto de vista que o filme é narrado quase na íntegra - e aqui o diretor de fotografia preferido de Spielberg, o húngaro Janusz Kaminski, opera maravilhas ao sugerir, com a câmera subjetiva, o sufocante horror da incapacidade de Bauby e a variedade de imagens que causam a ele alegria e esperança. Bauby, interpretado por Mathieu Amalric, desenvolve extrema habilidade com o olho que lhe resta, e faz dele seu único e mais que eficiente instrumento para ditar, piscada por piscada, letra por letra, o best seller que dá nome ao filme. O livro foi publicado em 1997, apenas alguns dias antes de sua morte.
Narrado com doses generosas de humanidade e humor, ''O Escafandro e a Borboleta'' não falha em seu caloroso contato com o público, na trilha de ''Meu Pé Esquerdo'' ou ''Mar Adentro''. Há empatia espontânea e instantânea com personagens periféricos, como a fisioterapeuta responsável pela ''alfabetização'' ocular de Bauby; a ex-mulher do jornalista, vivida por Emmanuelle Seigner, e Papinou, o velho pai do personagem. Em apenas duas sequências, o veterano sueco Max von Sidow oferece tal densidade emocional que se transforma quase em protagonista.
Apesar da construção formal irrepreensível - 2 horas e 22 minutos de pura estesia -, ''Luz Silenciosa'', terceiro filme do mexicano Carlos Reygadas, se coloca desde logo em rota de indefinição, mesmo sendo óbvia a enorme influência do histórico cineasta dinamarquês Carl Dreyer O argumento, em torno de um triângulo amoroso, resta delimitado aos Menonitas, membros de uma comunidade rural neo-holandesa que vive no México, propõe pacifismo radical, se recusa a reconhecer a internet e fala o ''plautdietsch'', dialeto germânico próximo do holandês medieval.
O filme tem cenas dignas de figurar em uma galeria de arte - e é este excesso de preciosismo o que esvazia a dramaturgia, resseca as implicações afetivas e empresta a ''Luz Silenciosa'' um tom de solene empalhamento.
Único filme de animação selecionado para a mostra competitiva, ''Persepolis'' chegou à tela em Cannes marcado pela polêmica. Realizado pela desenhista francesa de origem iraniana Marjane Satrapi, o filme é uma narrativa autobiográfica, filmado em preto-e-branco e baseado na história em quadrinhos que se transformou em cult em toda a Europa.
Em ''Persepolis'', Satrapi fala de sua família e seus ancestrais - e aí sua história se transforma em toda a história do Irã, com os desdobramentos políticos e religiosos de seu país. É um enfoque realista, crítico, tragicômico, um olhar pacifista, uma HQ (e agora um filme) que vem influenciando milhões de leitores. Por isto o protesto formal do governo iraniano contra a estréia e difusão do trabalho dela.
A resposta do governo francês foi pronta e dura, em nota oficial do Ministério das Relações Exteriores: ''Este filme foi selecionado pelos responsáveis pelo Festival de Cannes, que não estão sob a autoridade do governo francês. Assim, não há nenhum enfoque político nesta escolha, feita unicamente por razões artísticas''. O episódio pode não ficar por aí.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Cannes


