Brasília, 21 (AE) - Com a exibição de "O Encantamento de Camargo Guarnieri", média-metragem do cineasta José Sette em homenagem ao maestro e compositor paulista, abre-se amanhã (22) a 32.ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme, de 35 minutos de duração, será exibido na Sala Villa-Lobos, com acompanhamento da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional. Uma abertura tradicional, de terno e gravata, confraternização e boca-livre no anfiteatro depois da sessão.
A competição, para valer, começa apenas na quarta-feira, quando o festival se muda para sua sede tradicional, o Cine Brasília. Quatro filmes dão início à mostra competitiva: os curtas "Copacabana", de Flávio Frederico, e "Sob a Sombra dos Anjos", de Rogério Terra Júnior, e os longas "O Tronco", de João Batista de Andrade, e "Por trás do Pano", de Luiz Villaça. O ritmo será sempre esse, exaustivo, do começo ao fim do festival, porque a organização entendeu que, este ano, Brasília deveria abrigar 12 longas-metragens, em vez dos seis ou no máximo oito das versões anteriores.
Os dois longas do primeiro dia são conhecidos pelos paulistanos. Tanto "Por trás do Pano" como "O Tronco" já passaram pelos cinemas da capital e não se pode dizer que tenham vivido carreiras brilhantes. São filmes corretos, que dão seu recado sem surpreender. "Por trás do Pano" fala dos conflitos existenciais e conjugais dos atores e atrizes que pretendem montar uma nova versão de "Macbeth", de Shakespeare." O Tronco", baseado em romance de Bernardo Élis, descreve os conflitos de coronéis do norte de Goiás com o governo do Estado, acontecidos nos anos 20.
Polêmicos - Pode-se esperar mais dos outros dias de competição. Duas novidades animam o segundo dia da mostra: "Cruz e Souza, o Poeta do Desterro", de Sylvio Back, e "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar", de Flávio Cândido. Back chama essa cinebiografia de reinvenção da vida e morte do poeta catarinense João da Cruz e Souza por meio de 34 "estrofes visuais". É ver no que dá. "A Terceira Morte de Joaquim Bolívar" repõe no jogo morno do fim dos anos 90 uma espécie que se supunha em extinção no âmbito nacional: o cinema de idéias, aquele em que o diretor tem algumas teses a respeito do País, da vida, ou do que for, e as discute por meio da ficção. No caso, são três momentos da vida de um mesmo personagem, um militante comunista, em momentos distintos: 1964, ano do golpe militar; 1979, data da anistia, e 1999, fim de milênio e das utopias da esquerda. Tem tudo para ser um dos filmes mais polêmicos deste festival.
"Gêmeas", de Andrucha Waddington, e "São Jerônimo", de Julio Bressane, são os longas do terceiro dia de competição. "Gêmeas" é mais um filme da Conspiração, produtora que levou o longa de episódios inspirados em Nélson Rodrigues, "Traição", no ano passado a Brasília. "Gêmeas" traz Fernanda Torres em três papéis diferentes e retoma o tema rodriguiano por excelência das duas irmãs que se apaixonam pelo mesmo homem. Fazia parte do projeto de "Traição", mas acabou ganhando vida própria. "São Jerônimo" é uma inspiradíssima versão de Bressane para a vida do santo intelectual e responsável pela "Vulgata", a tradução dos textos sagrados para o latim. É, desde já, forte concorrente. Mesmo porque, em Brasília, Bressane é sempre forte concorrente. Ele mesmo, no festival passado, se auto-intitulou de "o bem-amado".
"Hans Staden", de Luiz Alberto Pereira, faz par com "No Coração dos Deuses", de Geraldo Moraes, no quarto dia da competitiva. "Hans Staden", que um dia já se chamou "Lá Vem Nossa Comida Pulando", fala do explorador alemão que esteve no Brasil no século 16 e por pouco não foi comido pelos índios tupinambás. Primórdios do País, retomados também, de outro modo, por Geraldo Moraes, em "O Coração dos Deuses", mix de viagem pelo tempo e saga bandeirista destinada ao público adolescente.
Um documentário, "Um Certo Dorival Caymmi", de Aluísio Didier, e um docudrama, "Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira, passam no quinto dia de competição. Quem viu Dorival Caymmi fala muito bem dessa reconstituição poética da trajetória do grande compositor baiano. "Milagre em Juazeiro" procura resgatar a história do padre Cícero Romão Batista e da beata Maria de Araújo, dupla responsável por um feito religioso que alterou a história do Nordeste brasileiro.
No último dia de competição, mais dois documentários. "Santo Forte", de Eduardo Coutinho, em cartaz em São Paulo, é um estudo sobre a religiosidade em um microcosmo social brasileiro, a Favela Parque da Cidade, na zona sul do Rio. "Senta a Pua!", de Eric de Castro, retrata a saga do 1.º grupo de aviação de caça no Brasil e sua campanha na Europa, durante a 2.ª Guerra Mundial.
Há uma curiosidade em relação aos longas deste ano. Apenas 5, entre os 12, são de pura ficção:" O Tronco, Por trás do Pano, Joaquim Bolívar, Gêmeas e No Coração dos Deuses". Os sete restantes são documentários, docudramas ou, no mínimo, se propõem reconstituir a vida de personagens reais: Cruz e Souza, São Jerônimo, Hans Staden, Caymmi, Milagre em Juazeiro, Santo Forte e Senta a Pua! Como se a vida real tivesse se tornado mais estimulante que a imaginária.
Será sobre esse universo que o júri de longas terá de trabalhar. Ele é formado pelos cineastas Cláudio McDowell, Manfredo Caldas e Ugo Giorgetti, e pelos críticos Susana Schild, José Geraldo Couto, a atriz Imara Reis e o diretor Murilo Salles. Será deles a responsabilidade de escolher o melhor filme desta safra, que, além da glória, sairá do Distrito Federal com um belo cheque de R$ 50 mil. Para diretor nenhum botar defeito.
Surpresas - A competição de longas-metragens é sempre o filé mignon de todo festival. Mas nem sempre é o melhor que se pode ver durante o evento. É bom prestar atenção aos curtas-metragens em 35 milímetros, ou garimpar seriamente na mostra de 16 milímetros, exibida em outro lugar, para descobrir a inovação, alguma estréia surpreendente, algum nome promissor.
Entre os curtas já conhecidos de outros festivais, o destaque fica para os excelentes "De Janela para o Cinema", de Quiá Rodrigues, e "Deus É Pai" de Allan Sieber. O primeiro é uma animação com bonecos, muito criativa, que recicla carinhosamente alguns momentos marcantes da história do cinema, certamente pontos de referência afetiva para o seu criador. E falando em criador, "Deus É Pai", em três minutos, propõe um hilariante e debochado encontro entre Deus e seu Filho, ambos tentando se entender diante de uma perplexa terapeuta familiar.
Isso para falar nos conhecidos. Mas a maioria dos curtas em 35 milímetros é formada por títulos ainda inéditos. Esperam-se boas surpresas. Um detalhe: "Copacabana", de Flávio Frederico, é o único representante paulista nessa modalidade. A estranheza vem do fato de São Paulo, tradicionalmente, dominar o formato, em razão do Prêmio Estímulo, que possibilita a produção de bom número desses títulos no Estado. Alguma coisa deve ter ocorrido no apoio à produção de curtas em São Paulo.
Como todo festival que se preza, Brasília terá também a sua parte conceitual, com discussões sobre problemas que dizem respeito ao métier. Haverá seminários sobre direção e produção, pós-produção, distribuição e marketing, cinema e TV, reunindo nomes como Fábio Soares, Bruno Wainer, Andrucha Waddington, João Moreira Salles e muitos outros. É tradição que se discutam os problemas da produção (agora em baixa), e os eternos problemas que se localizam na distribuição e na exibição dos filmes nacionais.
Nem sempre essas discussões têm rendido frutos, frustração que é também tradicional. Mas talvez seja demais esperar que problemas que se arrastam há décadas sejam resolvidos durante um breve festival de cinema. Talvez seja o destino desse tipo de impasse ser debatido à exaustão até que se vislumbre alguma solução prática. Mas nunca é demais esperar.
A novidade, este ano, é a visita de uma delegação francesa, que também participará dos debates. À frente da missão gaulesa, o todo-poderoso redator-chefe da revista "Cahiers du Cinéma", Serge Toubiana. O depoimento deles será valioso. Afinal, diante do avanço globalizante de Hollywood, a França é o único país ocidental a deter (ainda) 30% do mercado interno para seu cinema. Devem ter alguma coisa para ensinar.

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