FESTIVAL DE BERLIM FAZ 50 ANOS
Amir Labaki
Agência Folha
A partir de amanhã, o Festival Internacional de Cinema de Berlim celebra sua 50ª edição inaugurando finalmente uma sede própria. É o Berlinale-Palast, um suntuoso complexo de salas erguido na Potsdamer Platz, na antiga Berlim Oriental. O improvisado Zoo Palast, na coração da velha Berlim Ocidental, cede o posto, tornando-se apenas um endereço a mais no circuito da mostra. O festival mais marcado pelas rusgas da Guerra Fria estabelece-se assim em terreno antes adversário, num gesto de integração que, sinal dos tempos, nem soa mais provocador. Muito mais polêmica parece ser a escolha de O Franco Atirador (1978), de Michael Cimino, para a sessão comemorativa da efeméride, no próximo dia 16.
A torturada revisita de Cimino à intervenção americana no Vietnã pautou, em sua projeção original há 21 anos, um dos maiores conflitos ideológicos deste meio século de evento. Segundo uma nota oficial dos representantes da então União Soviética, a exibição violava os regulamentos que defendem um maior entendimento entre as nações. Apoiaram-na, claro, outras delegações do então bloco socialista, da Bulgária à Polônia, de Cuba à própria Alemanha Oriental.
Estamos projetando O Franco Atirador como um dos eventos de nosso Aniversário de Ouro devido ao papel maior representado por ele na história do festival, justificou o diretor da mostra, Moritz de Hadeln.
Patrioteiro e xenófobo para uns, crítico e multiculturalista para outros, O Franco Atirador convida agora a uma revisão, para além dos automatismos exegéticos da Guerra Fria.
A nova projeção saúda ainda a carreira de Robert De Niro, um dos homenageados especiais do ano. A outra é a atriz francesa Jeanne Moreau. Uma piscadela para Hollywood, outra para o cinema europeu. Nada mais simbólico da nova fórmula assumida por Berlim a partir da derrocada socialista de 1989.
Nada mais natural, também, que a escolha de um policial futurista dirigido por Wim Wenders e estrelado e coproduzido por Mel Gibson para a sessão de abertura de quarta. The Million Dollar Hotel se passa na Los Angeles de 2001 e foi escrito por Nicholas Klein (O Fim da Violência) a partir de uma história original dele e Bono Vox (U2).
Berlim retribui assim a Wenders o muito que lhe deve quanto à reconstituição de sua imagem mítica nas telas. O diretor de Asas do Desejo (1987) tem ainda nova oportunidade para conquistar seu primeiro Urso de Ouro, o único prêmio máximo de um grande festival ainda ausente de sua prateleira (venceu Veneza-82 com O Estado das Coisas, e Cannes-84 com Paris, Texas).
Ao menos no papel, a disputa não será fácil. Cineastas consagrados mesclam-se a talentos recentes entre os concorrentes ao Urso de Ouro 2000. Apenas dois deles, o tcheco Milos Forman e o chinês Zhang Yimou, já saíram daqui vitoriosos.
A concorrência começa forte já com os dois outros representantes da esquadra germânica, Volker Scholoendorff e Rudolph Thome. Desde 1986 (Stammhein), lembre-se, um cineasta alemão não triunfa aqui. O cinema americano lidera a competição, com 7 dos 21 títulos, e realiza uma espécie de prévia ao Oscar 2000. Quatro dos selecionados sonham com uma vaga entre os indicados pela Academia, que serão conhecidos na metade do festival (dia 15). O Talentoso Ripley, de Anthony Minghella, e Man on The Moon, de Milos Forman, parecem ter maiores chances de concorrer ao Oscar de melhor filme, mas Furacão -The Hurricane, de Norman Jewinson e Any Given Sunday, de Oliver Stone, não estão totalmente fora do páreo e certamente serão lembrados em outras categorias. O tradicional apreço berlinense pela produção independente made in USA conta pontos a favor de Magnolia, de Paul Thomas Anderson, e de Signs and Wonders, do vencedor no Sundance-97, Jonathan Nossiter que será mostrado no domingo.
Além dos títulos norte-americanos e europeus, apenas a Ásia teve filmes selecionados para a competição (três). América Latina, África e Oceania estão fora da disputa, sendo representados apenas nos programas paralelos do festival.





