FESTIVAL COMEÇA COM MÚSICA
Beth Néspoli
Agência Estado
Uma aura de mistério ainda envolve o povo cigano, que provoca um misto de atração, medo e até repulsa onde quer que chegue. A música é sem dúvida a mais forte manisfestação artística desse povo nômade, originário da Índia, que se espalhou pelo mundo a partir do século 7. Apesar de ter preservado o seu idioma, o romani, os ciganos assimilaram a religião e a cultura dos países nos quais se instalaram, daí serem os responsáveis pela preservação de cantos, poemas e epopéias árabes milenares.
Divulgar a riqueza do canto e da dança desse povo que cultua a liberdade - e talvez por isso incomode tanto - e ressaltar a importância dos ciganos na preservação de manifestações musicais milenares estão entre os objetivos do 8º Festival Internacional de Artes Cênicas (Fiac), que começa hoje em São Paulo e tem como tema a Diáspora Cigana.
Realizado em conjunto pelo Sesc e pela atriz e promotora cultural e diretora artística Ruth Escobar, o festival conta ainda com o apoio do Estadão Cultura, um programa criado em 1996 com o objetivo de estimular a expressão cultural e artística.
A apresentação conjunta dos grupos Divana e Fanfarra do Bijapur, da Índia, e Os Músicos do Nilo, do Egito, no Sesc Vila Mariana, a partir das 21 horas de hoje, abre oficialmente o festival, que terá duração de 13 dias e reunirá 10 grupos de artistas ciganos ou ligados à música e à dança ciganas. O critério de escolha dos grupos foi o de qualidade musical, garantiu Ruth Escobar. Todos os selecionados já se apresentaram em diversos países europeus; eu poderia ter trazido centenas de grupos se o critério fosse apenas pertencer à cultura cigana.
O Divana esteve no País no ano passado, integrando a programação do 7º Fiac. Estou feliz pela oportunidade de voltar ao Brasil e apresentar-me com Os Músicos do Nilo, disse Khan Barana Gazi, um dos seis músicos que integram o Divana com uma cantora e uma bailarina. Alain Weber, especialista em música cigana e responsável pela descoberta do grupo Os Músicos do Nilo, em 1975, do qual se tornou diretor artístico, ressaltou a particularidade do Divana. Com essa apresentação, o público terá a oportunidade de ouvir uma música de origem, já que os músicos vivem no Rajastão, Índia, local de origem desse povo.
Ao entrar em contato com Os Músicos do Nilo, Weber sentiu-se atraído pela qualidade desse conjunto de música árabe. Só com o tempo fui descobrir tratar-se de um grupo cigano e comecei a pesquisar essa cultura. Weber descobriu então que, apesar das assimilações culturais, os ciganos haviam preservado seu idioma e uma forma particular de harmonizar os sons.
Segundo ele, os músicos e dançarinos tiveram sua origem na corte dos rajás ou marajás e cada grupo ou casta de músico se especializou num tipo de ritual. A especialização, comum entre os orientais também no teatro, diferenciou as castas de músicos, seus instrumentos e sonoridades. Cada grupo se especializava no acompanhamento de um ritual diferente: casamento, enterro, batizado, procissão, colheita, etc. O Divana mescla três castas de músicos e a musicalidade de uma delas o público poderá identificar mais facilmente porque remete à sonoridade clichê da música árabe dos encantadores de serpentes e bailarinas com seus gestos sensuais, afirmou Weber.
Tendo participado em 1993 do primeiro festival de World Music, os Músicos do Nilo há muito vêm contribuindo para difundir a música árabe. Recentemente, o grupo participou do filme Latcho Drom, de Tony Gatlif, cineasta que com Emir Kusturica põe em foco a cultura cigana.
Os 16 músicos da Fanfarra de Bijapur vão recepcionar o público antes mesmo de ele entrar no teatro. Todas as apresentações desse grupo serão ao ar livre, o que combina com sua alegre e ruidosa música criada para acompanhar a procissão que segue o noivo no seu trajeto até a casa da noiva, nas cerimônias de casamento. Entre nós, seguirá os espectadores até o teatro.





