O universo complexo para alguns delirantemente genial de Antonin Artaud será transposto ao palco hoje e amanhã, no espaço Alternativo/Casa de Cultura, num espetáculo que deverá suscitar várias reflexões no público do Filo 2003. E não é para menos. O monólogo ''Cartas de Rodez'', com o grupo Amok Teatro do Rio de Janeiro, é sedimentado nas cartas que o ator e dramaturgo escreveu ao seu médico psiquiatra, Dr. Ferdiére, na tentativa desesperada de manter-se lúcido e também demonstrar o sofrimento a que era submetido. ''É um texto arrebatador em que há espaço para o humor. Ao contrário, é dolorido'', resume o ator Stephane Brodt que durante 1h10 minutos vive o calvário enfrentado por Artaud durante os nove anos em que ficou confinado em manicômios na França. A direção é de Ana Teixeira.
Escritor, ator, dramaturgo e visionário, Antonin Artaud concebeu, nos anos 30, um teatro muito particular que, resumidamente, não poderia haver distância entre ator e platéia. Ou seja, todos fariam parte do processo. Uma das maiores influências na contracultura ocidental dos anos 60, Antonin Artaud tinha uma personalidade tão forte quanto complicada. Aos 15 anos de idade começou a tomar drogas, ópio em especial, para aliviar suas dores de cabeça e, por extensão, a crise existencial que o circundava. Tomado por louco, em 1937 acabou sendo internado no manicômio. A partir de então, passou por diversas instituições psiquiátricas, numa época em que a segunda guerra mundial pipocava.
Numa dessas clínicas, situada em Ville Evrard, região da França ocupada pelos alemães, Artaud é resgatado pelo Dr. Ferdiére confesso admirador do escritor e dramaturgo. O médico consegue levá-lo para o Asilo Psiquiátrico de Rodez, situado na zona livre do domínio alemão, onde era diretor da instituição. ''Ele o trouxe de volta à vida e o incentivar a escrever. Artaud a princípio o considerava um anjo'', diz Stephane Brodt.
Aos poucos, o sentimento de gratidão dá lugar à revolta. Ferdiére passa a considerar como delirante o comportamento de Artaud e lhe prescreve eletrochoques uma bateria de 60 sessões que abalaram a mente e também o corpo do dramaturgo, ao ponto de ele perder todos os dentes. ''De anjo salvador, Artaud desenvolve a revolta e daí produz textos fulminantes'', analisa Stephane Brodt. Mesmo com toda a raiva pela desumanidade por que passava, Artaud continuava a escrever para Ferdiére. Escrevia para não enlouquecer completamente.
A desumanidade durou três anos até que por pressão de intelectuais, conseguiu sair do manicômio de Rodez. Vai a Paris. Morre ano e meio depois em consequência de um câncer de próstata e também pelo maus-tratos que tão bem conheceu na pele. Para compor o já alquebrado Antonin Artaud, um dos mais importantes teatrólogos do século 20 e autor da revolucionária obra ''O Teatro e Seu Duplo'', o ator Stephane Brodt recorreu aos ensinamentos de Ettiene Decroux, criador da gramática corporal denominada Mímica Corporal Dramática.
Para compor o personagem, Brodt diz ter buscado também referências na obra de Artaud. ''Não é um personagem de ficção. Por isso, vida e obra são indissociáveis'', diz ele. Se é um espetáculo que faz alusão à loucura, Brodt é categórico: ''As perguntas que poderiam ser feitas após o espetáculo são: onde estão as fronteiras entre o normal e o anormal? Que poder tem alguém para julgar alguém como louco?''
''Cartas de Rodez'' estreou em 1998, no Rio de Janeiro, no Instituto Philippe Pinel. Inicialmente concebido para um público máximo de 50 pessoas, acabou ampliando a capacidade de público para que pudesse ganhar maior visibilidade, inclusive em festivais. Sucesso de público e crítica, a montagem ganhou dois prêmios Shell de Ator (Stephane Brodt) e Direção (Ana Teixeira) e um Mambembe de Melhor Espetáculo.
FICHA TÉCNICA
''Cartas de Rodez'', com o Grupo Amok, do Rio de Janeiro. Monólogo com o ator Stephane Brodt. Direção e cenário: Ana Teixeira. Concepção e montagem de texto: Ana Teixeira e Stephane Brodt.

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