Um tem gradução em Física, o outro é diplomado em Medicina. A música, porém, falou mais alto para o violeiro mineiro Roberto Corrêa e para o pianista gaúcho Ney Fialkow quando foram obrigados a optar entre entre o exercício de suas respectivas formações acadêmicas e o universo abstrato das melodias, ritmos e harmonias.
Ambos estão participando como concertistas e professores do 23º Festival de Música de Londrina. Os dois se apresentam hoje Roberto Corrêa, às 18h30, no Teatro Marista; e Ney Fialkow, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde. São as principais atrações do dia que incluem ainda duas apresentações da Orquestra de Sopros de Paranavaí e a última sessão da série ''Filme Comentado''.
Corrêa, 46 anos, largou a Física para se tornar um virtuose da viola. Radicado em Brasília, já percorreu o mundo para difundir os timbres agudos do instrumento, do qual é considerado um mestre. Lançou 11 discos, três livros e até um vídeo didático sobre a viola e a música produzida no interior do país. No recital de hoje, mostra o repertório do CD ''Extremosa-Rosa'', lançado no ano passado pelo seu próprio selo.
''Esse disco é uma síntese de meu trabalho'' afirmou ele, em entrevista coletiva ontem de manhã. ''Ao contrário de meus últimos álbuns, que eram exclusivamente instrumentais, o CD traz também músicas cantadas. Ele quebra um hiato de mais de dez anos em que não registrava minha voz, que apareceu apenas no disco 'Viola Andarilha' (1989) cuja gravação não ficou muito boa''.
No palco, Corrêa vai tocar uma viola de cocho (típica do pantanal mato-grossense) e duas violas caipiras (uma delas fabricada pelo luthier maringaense João Viola). O concerto, ressalta ele, marca uma mudança em sua concepção de apresentação ao vivo. ''Pela primeira vez, sou dirigido. O Ari Pararraios (o diretor, morto no começo desse ano) tirou toda a parte didática que caracterizava meus recitais para enfatizar a idéia de show, de espetáculo'' diz.
No roteiro, o músico intercala as performances ao instrumento com poesias suas e de autores como Manoel de Barros e Cora Coralina. O violeiro salienta que depois de ''Extremosa-Rosa'', outros dois CDs contendo seu nome nos créditos desembarcaram recentemente nas prateleiras. Um é o oitavo volume da coleção ''A Música Brasileira deste Século por seus Autores e Intérpretes'', que inclui a transcrição em CD e livro de sua participação no programa ''Ensaio'' da TV Cultura.
Outro é o CD ''Esbrangente'', trazendo a gravação do encontro entre o músico e seus amigos também violeiros Paulo Freire e Badia Medeiros durante turnê de dois meses que percorreu 36 cidades de oito Estados brasileiros. Corrêa acrescenta que o trio vai voltar a ser reunir brevemente para uma excursão pelo interior de São Paulo.
Ainda nesta temporada, ele planeja lançar dois CDs por seu selo Viola Corrêa Produções Artísticas, além de um songbook com a transcrição de suas partituras em tablaturas. Um dos projetos de CDs é um álbum de Badia Medeiros, o outro é o registro de gravações de manifestações populares coletadas no Paraná ao lado de sua esposa Juliana Saenger a convite do Governo do Estado.
Sobre esta última experiência, ressalta que o material é surpreendente. ''O fandango, o congado da Lapa, a folia de reis e a dança de São Gonçalo são alguns dos exemplos que encontramos, contrariando a imagem de que o Paraná é pobre em cultura popular'' explica. Com alguns recitais no exterior cravados no currículo, o músico anuncia uma nova viagem para fora do Brasil, prevista para o final do ano.
''Mas desta vez, não vou para representar nenhuma instituição ou órgão oficial do país'' observa. ''Vou para entrar no circuito internacional de shows. Quem está negociando as apresentações é a musicista Maria Inês Marquezi, que toca viola e rabeca. Eu, ela e o contra-baixista acústico Hendrich-Jam vamos formar o Roberto Corrêa Trio para tocar na Holanda e na Áustria''.
Empolgado com boa fase pessoal, o músico sublinha que a viola experimenta um período privilegiado. ''Percebo uma efervescência muito grande em torno do instrumento, especialmente com o interesse devotado pelos jovens. As pessoas estão começando a constatar que a viola pode ser tocada e ouvida desvinculada de seu contexto cultural. É um instrumento muito rico, que não precisa estar relacionado à catira ou à moda de viola para se destacar''.

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