Foi um verdadeiro passeio. Primeiro, os mais prolongados aplausos na sessão para os jornalistas, em toda a mostra. Em seguida, durante a muito concorrida e calorosa entrevista coletiva. E finalmente na sessão de gala para o grande público, com a presença do diretor e dos dois atores principais, ovacionados por longo tempo. Pode ser que ''O Fiel Jardineiro'' não leve hoje à noite o Leão de Ouro de melhor filme, e nem Fernando Meirelles o de melhor diretor. Afinal, o júri que está aqui este ano é bastante peculiar e pode surpreender com uma fórmula mais cabeça, à européia (veja matéria nesta página). Mas de qualquer maneira, o filme de Meirelles se impôs, se não como o melhor, com certeza como um dos mais estimulantes da seleção competitiva. É aquele produto mágico, milagroso, que sintetiza à perfeição a fórmula ao mesmo tempo tão perseguida e tão pouco sucedida, a do filme comercialmente viável e artisticamente consumado.
''O Fiel Jardineiro'' (The Constant Gardener), que certamente não deverá passar em brancas nuvens nas nominações do próximo Oscar e com estréia brasileira prevista para 14 de outubro, é a versão cinematográfica do romance homônimo de John Le Carré, mestre da espionagem. É bom que se diga de saída que o consagrado, mas via de regra inadaptável escritor teve muita sorte, já que sua história foi adaptada com rara acuidade pela penetrante visão de terceiro mundo dos brasileiros Meirelles e César Charlone, este diretor de fotografia. É a história do casal Tessa (Rachel Weiss) e Justin (Ralph Fiennes), ela incansável ativista política, ele tímido e pacato membro do Alto Comissariado britânico na África, preocupado apenas com seu jardim e com as aparências.
O filme abre com a morte brutal dela, assassinada em área remota do Quênia. Ele aos poucos investiga os fatos e descobre um complô de milionária e poderosa indústria farmacêutica multinacional que estaria usando mulheres africanas como cobaias em testes de drogas ainda em fase experimental. Este o verdadeiro motivo do assassinato de Tessa, e não uma possível infidelidade, como a polícia, com insistência, quer demonstrar. Mas ninguém contava era com o grande amor de Justin por Tessa, a mulher que ele de fato conheceu muito pouco durante o breve casamento.
A narrativa se dá muito bem em todas as frentes que propõe, a do filme-denúncia lidando com material explosivo, como sincera apologia do ativismo político, como um ''thriller'' eletrizante e também como belíssima história de amor. O trabalho de fotografia de ''O Fiel Jardineiro'' é apenas um entre muitos pontos altos do filme, mas sem dúvida o sentido de urgência e de veracidade documental que passa ao espectador deve-se ao trabalho de parceria indissociável entre Meirelles e Charlone. A África está inteira na tela, com sua explosão de cores e dores, embalada pela trilha musical de Alberto Iglesias, ao mesmo tempo suave e pulsante de ritmos étnicos.
Poucas foram as coletivas deste 62º Festival de Veneza que reuniram tantos e tão interessados jornalistas como a de ''O Fiel Jardineiro'', ontem pela manhã. Na mesa, em sintonia fina com Meirelles, os atores Ralph Fiennes e Rachel Weiss e o produtor Simon Williams. E para os três, a primeira questão proposta foi sobre a atuação das multinacionais farmacêuticas que aparecem como vilãs da trama. Quando o livro foi publicado, a reação contrária do setor, que se sentiu prejudicado, foi imediata. E agora, com o reforço do filme, a denúncia afetaria o consumo de medicamentos na sociedade?
Meirelles disse que o ''O Fiel Jardineiro'' já estreou em vários países. Até agora não houve polêmica e acha que nem haverá. ''Quando estava fazendo o filme, li muitos artigos e muitos relatórios sobre o assunto, e a idéia era fazer mesmo um trabalho que dissesse coisas importantes. Assim, fizemos um documentário de 9 minutos que resolvemos incluir no filme. Quando Tessa fosse ao computador dela, assistiria aquele material, que foi todo extraído de fontes reais. Este documentário é como se fosse a minha voz, o meu depoimento sobre o tema, que afinal acabou ficando de fora do filme. Mas pretendo incluí-lo nos extras na versão em DVD''.
Para Meirelles, a questão do laboratório humano na África, testando mulheres como cobaias, é só um dos problemas. Outro, igualmente grave, são os altos custos dos medicamentos que a indústria impõe aos governos. Ralph Fiennes, que na trama vive Justin, acrescenta a questão da indisponibilidade de medicamentos aos doentes africanos portadores de tuberculose e Aids. E Rachel Weiss assinala um ponto que é para ela é hoje crucial: ''Há bilhões e bilhões e bilhões de dólares, euros, libras envolvidos no processo, e o que me parece é que os governos atualmente estão sendo de fato manipulados por corporações''. Sobre uma possível reação do governo britânico, que aparece no filme não exatamente em posição confortável, Fernando Meirelles disse que a autoridade britânica no Quênia, mesmo não gostando do livro, foi muito prestativa nas filmagens.
Sendo simultaneamente um ''thriller'', um filme de grande valor político e uma história de amor, o que, enquanto gênero, teria atraído Fiennes e Rachel? ''Eu adorei a idéia de que fosse ao mesmo tempo um thriller e uma love story'', confessa a atriz de ''A Múmia''. ''Acho que os dois gêneros estão aqui muito unidos, já que o personagem de Ralph não é nenhum James Bond, mas se torna uma espécie de detetive, de espião, embora seja um homem simples. E ao investigar a morte da mulher, ele descobre mais e mais sobre ela, e se torna mais e mais apaixonado por ela''. Para Fiennes, foi interessante fazer um personagem de um inglês normal que passa a uma espécie de cruzado, ''alguém que é tomado de ira quando descobre que o motivo porque mataram sua mulher tem exclusivamente a ver com o que as grandes corporações estão fazendo no Terceiro Mundo''.
Não poderia faltar a pergunta que muitos queriam fazer, isto é, como foi a evolução de ''Cidade de Deus'' para ''O Jardineiro Fiel''? E a resposta de Meirelles não foge à realidade: ''Como experiência pessoal, foi muito mais fácil fazer este filme. Porque eu sempre produzi meus filmes, e esta foi a primeira vez que fui apenas contratado para dirigir. Por isso agradeço ao Simon, minha vida se tornou muito mais fácil, tudo aquilo que eu precisei foi providenciado, foi muito bom ser rico (risos), você pode ter o que quiser, sempre fiz meus filmes com falta de dinheiro. O que também fez esta experiência ser fácil que ''Cidade de Deus'' é esta é uma história muito mais simples, esta é uma história sobre um personagem, a outra era muito mais complicada, mais difícil de controlar. Espero que a próxima experiência fique ainda mais fácil que esta''.
Fascinada com as cores que estão em ''O Fiel Jardineiro'', uma jornalista australiana quis saber de onde veio a inspiração. ''Veio do próprio Quênia'', disse Meirelles ''Quando fomos lá pela primeira vez, principalmente na grande favela de Kibera, onde tudo é basicamente marrom, as pessoas usavam roupas de cores muito fortes, e assim decidimos criar uma paleta, um mosaico de cores para o filme. A idéia de valorizar as cores dessa maneira foi do César Charlone, com quem trabalho há mais de 15 anos. É um grande amigo, estamos sempre muito próximos, nos conhecemos muito bem e confiamos um no outro. Algumas vez César utiliza a câmera na mão, e isso dá grande mobilidade às cenas, às vezes captadas de maneira documental, às vezes de modo mais clássico. Ele sabe com precisão quais minhas intenções para cada cena. De algum maneira é uma espécie de co-diretor deste filme''.

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