FESTIVAL - Veneza reflete sobre direito de vida e morte
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segunda-feira, 06 de setembro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha 
É parte do jogo. Da engenharia das mostras de cinema, em especial as que conferem prêmios importantes como o Leão de Ouro. A arrancada é sempre lenta e morna, sem grandes impactos. Em seguida as coisas acontecem de fato, e para melhor. Está sendo assim, neste 61º Festival de Veneza. O fim de semana, embora exaustivo, trouxe à discussão um bom número de títulos que fizeram a festa entre os cinéfilos. Alguns por suas qualidades superiores, outros nem tanto, mas de uma ou de outra forma fecundando o debate sempre necessário. As idéias avançaram, e isto foi bom.
Foi também um final de semana caótico para a organização da mostra (leia-se Biennale), pagando os pecados por uma grade de programação absolutamente congestionada a impressão é que o número de filmes selecionados daria tranquilamente para outras duas semanas de festival. O constrangimento foi pelos longos atrasos no início das sessões de gala na Sala Grande, pela venda de ingressos acima da lotação e as consequentes gafes (Al Pacino ficou sem lugar e voltou para o hotel), e ainda diante das atrevidas manifestações dos trabalhadores temporários, que em maio já tinham feito a mesma coisa em Cannes.
Por outro lado prosseguiu inalterado, nos hotéis e nas muitas festas, o trânsito intenso de colunáveis hollywoodianos. A idéia de ilha da fantasia só não ganhou mais força porque a grande imprensa européia providenciou tratamento mais discreto ao festival com seus ''divos'' e divas, estarrecida com a barbárie provocada pelo terrorismo internacional. E também porque o maior peso da parcela arte & ensaio acabou prevalecendo, o que naturalmente se espera (até quando?) de um festival com o calibre de Veneza.
A primeira acolhida realmente efusiva na mostra competitiva foi para ''Mar Adentro'', do espanhol Alejandro Amenábar. Emocionados aplausos e muitas lágrimas para o drama real do pescador Ramón Sampedro, tetraplégico que passou quase trinta anos na cama tentando dar fim à vida pelas vias legais. Um filme belíssimo sobre o direito de viver com dignidade, ou de não viver mais, sem ela. O jovem Amenábar dá uma guinada na carreira e abandona o thriller (para) psicológico (''Tesis'', ''Abre Los Ojos'', ''Los Otros''), mas não seu tema preferido, a relação do indivíduo com a morte.
O título do filme é o verso de uma das comoventes poesias do verdadeiro Ramón. Para Amenábar, está claro que a vida é um direito e não uma obrigação. E isto é mais que suficiente para que se discuta o tema da eutanásia com mais coragem. Se apesar das lágrimas a Palma de Ouro foi para ''O Quarto do Filho'', de Nanni Moretti, por que ''Mar Adentro'' não seria candidato ao Leão? E Javier Bardem pode repetir a dose, levando o prêmio de melhor ator que ganhou aqui em 2000, com ''Antes que Anoiteça''.
Dizem as más línguas que este ano Cannes esnobou o respeitável Mike Leigh (Palma de Ouro por ''Segredos e Mentiras''), não selecionando seu filme mais recente. Se for verdade, foi uma grande bobagem. ''Vera Drake'' passou em Veneza na mostra principal. Foi recebido com grande alegria e merecido júbilo. O filme é a segunda ''transgressão'' ética em cartaz no Lido. Fala principalmente de aborto e, como ''Mar Adentro'', é baseado em fatos reais.
Retorna Mike Leigh, o mestre da vida ordinária, o mago do microcosmo agora na Londres de pequenos-burgueses, 1950. Naquela velha-nova Inglaterra do pós-guerra. A Vera do título é mulher de meia idade, pequena, gentil, trabalhadora e dedicada à família. Mas Vera tem um segredo. Entre um e outro serviço como diarista, ela ajuda jovens a abortar. De graça, só para livrar as garotas de outras complicações num país de cruel perfil conservador. O procedimento é o mesmo tranquilo e minimalista utilizado no trabalho. Mas afinal Vera é denunciada, presa e condenada. Assim como Amenábar, Mike Leigh não julga (pelo menos explicitamente), e sugere que a verdadeira moralidade pode vir de um sentimento de solidariedade meramente instintivo e humano. O prêmio de melhor atriz para Imelda Staunton não está distante, para dizer o mínimo.
Risos (e não é uma comédia) e muitas vaias para ''Ovunque Sei'' (algo assim como ''Onde Quer Que Você Esteja''), a saia-justa em que Michele Plácido meteu a honra do país-anfitrião. ''Povero cinema italiano'', suspirava um sofrido, envergonhado jornalista durante a barulhenta sessão para a imprensa que enterrou qualquer pretensão do filme que de tão equivocado chega a ser ridículo. Dois anos depois do irregular mas superior ''Um Viaggio Chiamato Amore'', Plácido volta à competição com outro drama, outro argumento complexo, inquieto e nada elucidativo sobre a falência das relações afetivas, vaga e confusamente inspirado em Pirandello. Na linha do velho guerreiro Abelardo Barbosa, o Chacrinha, Michele Plácido não veio aqui para explicar, mas para confundir.
O fato de estar no júri oficial não impediu que Spike Lee trouxesse a Veneza, obviamente fora de competição, seu filme mais recente, ''She Hate Me''. Mais um pastiche grotesco do que propriamente um filme a ser considerado com seriedade, não é lá muito abonador numa carreira que costuma fustigar com bem mais talento os maus hábitos da comunidade afro-americana. Vice-presidente de indústria de biotecnologia denuncia falcatruas na empresa, é demitido e fica na pior. Para sobreviver, ele concorda em fertilizar a ex-noiva, agora lésbica, e mais um verdadeiro esquadrão multiétnico e multicultural de garotas gays que pretendem ter filhos pela via tradicional, sem inseminação artificial. Entre elas a deusa Mônica Belluci, filha de um mafioso a atriz tem parto de verdade marcado para 23 de setembro.
Domingo estranho na mostra competitiva. Três filmes bem diferentes, mas com um fator em comum: nenhum com chances de levar o Leão de Ouro. O mestre japonês da animação, Hayao Miyazaki, não deverá colocar outro bicho na estante ao lado do urso que levou em Berlim por ''A Viagem de Chihiro''. Ele está aqui com ''O Castelo Errante de Howl'', inspirado em fábula ocidental de Diana Wyne Jones ambientada na Inglaterra do século 19. São duas horas abertas a um inesgotável universo onírico. Tantas as mudanças de cenários, tantas as transformações de personagens, tantas as alternativas que ao final da meia hora inicial o esgotamento é evidente. Talvez as crianças curtam bem mais esta viagem de Miyazaki, que não está aqui mas incluiu no press-book a receita que BuÀnuel conhecia tão bem: ''Filmes não se fazem usando a lógica, mas abrindo a porta do inconsciente''.
Quem está de volta é Mira Nair, Leão de Ouro em 2002 com ''Um Casamento à Indiana''. Trouxe de Hollywood ''Vanity Fair'', blockbuster de muitos milhões de dólares, impecável como produção de época mas apenas rotineiro e burocrático como resultado final. Baseado no famoso e alentado romance de William Tackeray bem visitado por Kubrick na adaptação de Barry Lindon , o filme trata do atribulado alpinismo social da personagem-título, vivida com loura competência por Reese Witherspoon. Mas como dizia o livre pensador, valores de produção não significam produção de valor.
E neutra como sempre, a Suíça entrou na disputa com ''Tout un Hiver Sans Feu'', sobre casal que vê o mundo desmoronar depois da morte acidental da filha de cinco anos na propriedade rural onde vivem. Ela procura tratamento psiquiátrico, ele consegue emprego numa fábrica. O realizador estreante, Greg Zglinski, embora não saiba amarrar satisfatoriamente os dados há um componente de convivência multiétnica em meio à crise e à dor do casal realizou um filme estilística e intelectualmente discreto mas honesto.


