FESTIVAL - Vencedores de Cannes serão conhecidos hoje
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sexta-feira, 21 de maio de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 2 
Para os concorrentes de Cannes hoje é o dia D, a hora da verdade. Racionalmente, o júri deverá estar mais próximo do humanismo de ''Diários de Motocicleta'', de Walter Salles, e de ''A Vida é um Milagre'', de Emir Kusturica; ou do panfleto político estilo Michael Moore em ''Fahrenreit 9/11'' e das dúvidas amorosas e artísticas de Wong Kar-wai em ''2046'', podendo dividir entre esses a Palma, o Prêmio Especial do Júri e direção. E para melhor ator e atriz, há vários nomes a considerar, embora sem qualquer unanimidade prévia.
Além do presidente, Quentin Tarantino, outros jurados são as atrizes Tilda Swinton, Emmanuelle Béart, Kathleen Turner, o ator Benoit Poelvoorde, os diretores Jerry Schatzember, o crítico Peter von Bagh e a escritora americana Edwige Dantica. Pela primeira vez em 57 anos de festival, um júri vai se reunir com a imprensa para conversar sobre os resultados, em encontro marcado para amanhã. A idéia da organização é acrescentar transparência ao processo de escolha dos vencedores, colocando o júri diante de suas responsabilidades. Não apenas uma animação competindo, mas logo duas (''Shrek 2'' e ''The Ghost in the Shell 2: Innocence''). E ambas segundas partes. Não somente um documentário, mas dois (''Mondovino'' e ''Fahrenreit 9/11''). 2004 vai passar para a história também como o ano em que o mangá (a história em quadrinhos japonesa) chegou a Cannes. Outro recorde: seis filmes asiátiacos, quase 35 por cento dos títulos em competição. E se o bósnio Kusturica levar a Palma, o que não é difícil, será a terceira dele as outras foram ''Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios'' (1987) e ''Underground''(1995). Um recorde. Seguindo o sucesso da Lição de Cinema, dada todos os anos por um diretor de renome (agora Stephen Frears), também pela primeira vez o festival programou a Lição de Ator, inaugurada por Max von Sidow. Outra estréia foi a sessão Cannes Classics, que vai ser uma homenagem permanente à história do cinema, com homenagens, obras restauradas, exposições.
Uma boa surpresa e uma decepção, nas últimas sessões de concorrentes da mostra competitiva. Embora sempre fazendo um belo cinema, o chinês Wong Kar-wai frustrou as melhores expectativas com o seu ''2046'', filme de gestação complicada e conclusão idem início em 1999 e término apenas horas antes da projeção em Cannes (a atriz Maggie Cheung saiu irritada da projeção de gala, quando viu que, embora seu nome esteja nos créditos, ela simplesmente desapareceu na versão vista aqui). O fato é que há elementos na história que resultam meio sem sentido, e o que está na tela é a retomada, sem novidades, do lindo ''Amor à Flor da Pele'', aquela formidável transe do amor em crise, da dor de amor, do amor incomunicável. A propósito, ''2046'' é o ano para onde vão os personagens do livro do escritor do filme, em busca do passado. Ninguém volta de lá, a não ser ele. E também é o número do quarto de um certo hotel onde estão guardadas as agridoces lembranças afetivas. A única novidade aqui, em relação a ''In the Mood for Love'', é a consumação física da relação amorosa. Mas era preferível a etérea, platônica sugestão do outro filme.
A ótima notícia para a maioria dos festivaleiros exaustos no décimo dia da mostra foi ''The Life and Death of Peter Sellers'', retraçando o incrível percurso do mais delirante dos comediantes ingleses, de animador de programas de auditório da rádio BBC ao status de um dos mais talentosos cômicos jamais conhecidos. E também uma pessoa complicada por seus próprios fantasmas, genial e déspota, egoísta e mulherengo, atormentado por uma relação irresolvida com a mãe e carregando ao longo da vida uma culpa em relação ao pai. Bem roteirizado (a partir de um livro proscrito pela família de Sellers), com inspirada e inventiva direção de Stephen Hopkins e um elenco onde o australiano Geoffrey Hush brilha sem qualquer deslize over, ''A Vida e a Morte de Peter Sellers'' esmiúça sem concessões a conturbada vida privada do ator, bate duro em seus desvios de conduta mas não julga, preserva o talento e a obra.
- Devido às diferenças de fuso horário entre o Brasil e a França e ao horário de fechamento do jornal, o resultado do Festival de Cannes não será divulgado na edição de amanhã da Folha 2.


