Foi um final de semana longo, fatigante, mas na mesma medida estimulante. Para todos, sem exceção. Das salas escuras para as coletivas, daí em busca de entrevistas mais reservadas. Dezenas e dezenas de divas e divos para todos os gostos, no foco da imprensa mundial, disputados por paparazzi que, embora menos frenéticos que outrora, ainda fazem justiça à lenda afinal, é a civilização da imagem. Estresse coletivo, mas naturalmente incontornável, de quem é notícia e de quem a busca. Estresse este ano de resto muito, mas muito aliviado pela organização da mostra, que reparou em boa medida os danos da caótica edição passada. Há alimento e banheiro para todos, até a segurança ostensiva não é truculenta como se temia, mas bem treinada, paciente, educada. Tudo flui a contento. Os filmes, inclusive?
De sexta passada até ontem, uma avalanche de selecionados de todas as procedências e maneiras, alguns longos, excessivos. Outros toleráveis embora impróprios para o consumo festivaleiro. Enxutos em boa parte, precários diversos. Nenhuma obra-prima. A esta altura do 62º Festival de Veneza, entre títulos mais cool e tradicionais e outros mais avant-gardistas, alguns filmes colocam a questão reincidente em todos os festivais: mas que diabos isto aqui está fazendo na competição? São os casos de ''Os Irmãos Grimm'', de Terry Gilliam, e ''Proof'', de John Madden, intrusões tipicamente americanas chanceladas pelas major e pelos irmãos Weinstein, sempre muito à vontade por aqui. Não que sejam trabalhos ruins. Pelo contrário, são até que bem decentes, se circunscritos aos respectivos círculos de relações e áreas de influência.
Tomemos o primeiro, por exemplo. Gilliam, sempre inspirado pela anarquia do grupo Monty Python, subverte o literalmente fabuloso trabalho folclórico dos irmãos alemães Jacob e Wilhelm Grimm (Heath Ledger e Matt Damon) que no século 19 saíram pelo país natal recolhendo lendas e narrativas populares e legando depois à literatura infantil algumas das mais fascinantes narrativas, os chamados contos de fadas. E que fez Gilliam ? Transformou a dupla em trambiqueiros de primeira, aplicando o golpe dos caçadores de fantasmas e feiticeiras (que eles mesmos fabricam). Até que são obrigados pelos franceses invasores a encarar uma floresta encantada de verdade. É divertido, vocês vão conferir muito em breve aí no Brasil, em grande circuito. É puro entretenimento comercial, com Mônica Bellucci arrasadora como a Bruxa/Rainha, aquela mesma do ''espelho meu, existe alguém mais bela do que eu?'' Mas em competição?!
Um pouco mais disfarçado, tipo embalagem para presente em festa da inteligentzia anglo-saxônica, ''Proof''(''A Prova'', título provisório) é um desses filmes espertinhos endereçados àquela platéia bem pensante que adora o teatro de Sam Shepard e Neil Labute (não por acaso também gente de cinema). O filme tem verniz intelectual razoável, é bom de metáfora, de jogos de aparência e de vida. Anthony Hopkins e Gwyneth Paltrow, pai e filha matemáticos, brilhantes ambos, ele com um pé na insanidade, ela em busca de identidade. O diretor é John Madden, de ''Shakespeare Apaixonado'', habilidoso na manipulação do texto-suporte teatral e sem o teatro o filme jamais existiria. Mas em competição?!
Ainda da série ''impropriedades de uma seleção'', é da Coréia que chegou a ultra-sofisticada apologia da violência sádica, ''Sympathy for Lady Vengeance'', opus final da trilogia sobre a vingança idealizada por Park Chan-wook as outras são ''Sympathy for Mr. Vengeance'' e ''Old Boy'', este Prêmio Especial do Júri de Cannes ano passado e já lançado no Brasil. É a história de uma bela que se transforma em fera depois de amargar anos de prisão por um crime que não cometeu. Há um requintado linchamento que deve ficar na história das atrocidades inventadas pelo cinema. O filme é ainda mais perigoso porque é extremamente bem dirigido.
Da Polônia veio o irregular ''Persona Non Grata'', do veterano Krzysztof Zanussi. Embaixador polonês em Montevidéu chora a morte da mulher enquanto se vê às voltas com quiprocós diplomáticos, suspeitas de traição (de seu pessoal diplomático e também da mulher) e suas próprias obsessões existenciais. Junte-se a isso uma emblemática reflexão sobre as relações européias pós-comunismo e está feito o jogo. Um tanto embaralhado, mas em linha convergente daquilo que se espera de uma curadoria como a de Veneza.
Os franceses chegaram bem na disputa principal, e já em duas oportunidades. ''Les Amants Reguliers'', apesar do exagero de seus 178 minutos, é um acurado retrato de maio de 68. O diretor Philippe Garrel sabe do fala ao dissecar aquela geração ao sabor do político e do privado, entre o anarquismo e a droga, entre o licencioso e a liberdade. É um belo e quase sempre amargo documento sobre um período muito mais de perdas do que de ganhos.
Com ''Gabrielle'', o diretor Patrice Chèreau novamente acerta na mosca, depois de ''Intimidade'' e ''Dois Irmãos'', ambos premiados em Berlim. Adaptado de um conto surpreendentemente passional de Joseph Conrad, ''O Retorno'', o filme conta a história de um casal da burguesia parisiense durante a belle époque que se distancia diante da incapacidade de comunicação. Ele (Pascal Gregory) é tranquilamente obcecado pelo controle de tudo à volta. Ela (Isabelle Huppert) é profundamente insatisfeita, e vai dar conta disso. Há um terceiro elemento, que deflagra a crise. Como seu colega inglês John Madden, Chèreau também é homem de teatro. Mais voilà, vive la diference!
E há, é claro, os fora de competição, munição pesada para garantir passarela com grandes nomes. ''Cinderela Man'' é dos tais, fazendo circular no Lido o imprevisível Russel Crowe e a esfuziante Renée Zellwegger. O filme é puro entretenimento sobre pobreza, superação, heroísmo e...lágrimas. É o revigoramento, a ressurreição do ''american dream'' assinada pelo perito Ron Howard (''Apollo 13''), com cadeira cativa no cinema da Casa Branca de Bush. Também extra premiação, ''Elizabethtown'' é muito simpática comédia romântica on the road dirigida com inteligência por Cameron Crowe, e que carimbou o passaporte de Orlando Bloom, Kirsten Dunst e Susan Sarandon o filme valeria somente por uma sequência-solo com ela.

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