FESTIVAL - Uma síntese da pesquisa teatral
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de julho de 2003
Jackeline Seglin<br> Enviada a São José do Rio Preto 
Processos de investigação em grupo e a busca por linguagens próprias marcaram a programação do 3º Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, que terminou domingo. Durante 11 dias, grupos e artistas do Brasil, Argentina, Equador e Índia mostraram mais de 70 espetáculos. Segundo a organização, cerca de 80 mil pessoas assistiram às apresentações nos palcos da cidade.
A terceira edição do festival ressaltou produções do Sul e Sudeste brasileiro, com ênfase para espetáculos de São Paulo. O caráter internacional do evento ainda caminha para uma abrangência e conceitos mais expressivos. No entanto, a programação de espetáculos estrangeiros mereceu destaque, principalmente pela montagem ''Nuestra SeÀora de Las Nubes'', do grupo equatoriano Malayerba.
Com produções de qualidade, mas sem grandes novidades, várias linhas de pesquisa desenvolvidas atualmente no teatro nacional estiveram em cena no Festival de Rio Preto. A trilogia bíblica (''Paraíso Perdido'', ''O Livro de Jó'' e ''Apocalipse 1,11'') do Teatro da Vertigem, de São Paulo, arrebatou o público. Mexeu com sentimentos, causou sensações, enfureceu, apaixonou.
Aliás, a emoção pegou o público de jeito em outras montagens, como em ''Café com Queijo'', do grupo Lume (Campinas), que em toda sua simplicidade foi capaz de levar o espectador a uma tocante viagem pela memória, resgatando sentimentos amortecidos.
''Os Sete Afluentes do Rio Ota'', baseado na montagem original do canadense Robert Lepage, também causou impacto no público, ao contar a história de uma tcheca, sobrevivente do holocausto que vive em Hiroshima (Japão) e rememora lembranças de uma cidade reconstruída a partir da bomba atômica. Com cinco horas de duração, ''Os Sete Afluentes...'' fechou em grande estilo a programação do festival, com duas apresentações consecutivas da montagem que marca a estréia de Monique Gardenberg na direção.
O espetáculo multimídia - que coloca no palco cinema, vídeo, teatro de sombras e dança - é ainda marcado por brilhantes atuações de Maria Luisa Mendonça e Caco Ciocler, que integram o elenco ao lado de Pascoal da Conceição, Beth Goulart, Giulia Gam e outros nove atores do Rio de Janeiro e São Paulo.
Entre as boas montagens do festival figuram ainda ''Babilônia'', da companhia Folias D'Arte (SP), ''Volta ao Dia em Oitenta Mundos'' (ver matéria nesta página) e ''Mire Veja'', da Companhia do Feijão (SP). Dos espetáculos voltados ao público infantil, ''Por que o Mar Tanto Chora?'', do grupo paulistano ''As Meninas do Conto'', foi um dos destaques da programação.
O cancelamento de dois importantes trabalhos marcou a programação da edição 2003 do festival. José Celso Martinez Corrêa não apareceu com o Teatro Oficina para mostrar a primeira parte de ''Os Sertões'' A Terra. A justificativa foi a falta de uma estrutura adequada para a apresentação. A produção libanesa ''Biokhraphia'', que teria duas apresentações no evento, foi cancelada porque os artistas não conseguiram obter visto em seu país de origem.
O festival realizou, ainda, oficinas com atores locais, bate-papo depois dos espetáculos selecionados e debates sobre Direção, Dramaturgia e O Trabalho do Ator.
A badalação prejudicou a programação artística do lugarNenhum, espaço montado em galpões de uma fábrica desativada para ser o ponto de encontro do festival. O barulho excessivo e o posicionamento inadequado dos palcos atrapalharam as performances e shows programados para as noitadas.
Em todo caso, a organização antecipa que dará nova cara ao espaço noturno. Para o presidente do evento, Ruy Sampaio, ''o modelo atual - adotado em 2001, quando o Festival se tornou internacional - se esgotou''. A nova versão deve ganhar um caráter mais intimista. O formato do festival também será repensado, reforçando na programação os espetáculos de rua.
Também pensando em 2004, o foco das discussões deve ser o imperialismo cultural. Trabalhando com o tema provisório ''Rio Preto-Miami-Texas'', a organização pretende discutir no evento o poder da indústria cultural norte-americana sobre a produção brasileira.
O Festival de Rio Preto é realizado pela Secretaria da Cultura de Rio Preto e Sesc São Paulo.


