FESTIVAL - Uma heroína do clown
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 16 de junho de 2005
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Já são 24 anos dedicados à arte de fazer clown e a atriz Gardi Hutter, 52 anos, da Suíça, diz que a cada apresentação a emoção do desafio está à flor da pele, como se fosse a primeira vez. Transmitindo muita vivacidade e prazer ao falar da arte que faz, Gardi traz a Londrina o espetáculo ''Jeanne D'ArPop'', hoje e amanhã, no Teatro Zaqueu de Melo, às 19 horas. Na peça, a personagem é uma lavadeira que vê na história de Joana D'Arc a inspiração para se imaginar uma grande heroína.
A simplicidade da sua vida, do seu universo, repleto de roupas sujas, sabão, tanque, máquina de lavar roupa, não a intimida e tudo pode ser um pretexto para uma nova batalha, talvez de superação, onde o rir de si mesmo se confirma como uma das estratégias mais inteligentes de sobrevivência.
Tendo como inspiração Charles Chaplin, Gardi ressalta que o trabalho de clown fala da tragicomédia da vida. ''O clown exagera as coisas, mas é uma forma de fazer você ir a fundo nas emoções e submergir da dor, superá-la, rindo depois'', comentou a artista que já fez turnês por 20 países, totalizando mais de 2.400 performances.
Na sua opinião, o trabalho mais difícil é descobrir o tipo de clown que existe dentro de si, independentemente da técnica que se usa. No seu caso, foram três anos de dedicação até que aflorasse o seu ''próprio clown''. ''Às vezes era muito desgastante, parecia um esforço inútil, sem esperança, mas consegui.''
Ela tem imensa admiração por Chaplin e admira o fato dos seus filmes ainda estarem tão atualizados. ''Ele fazia algo muito puro. Ao mesmo tempo que as histórias eram extremamente tocantes, nos faziam rir'', ressaltou. Nesse tipo de arte a busca pela simplicidade é o essencial, acrescentou a artista.
É a primeira vez que ela se apresenta em Londrina, onde está sendo acompanhada pelo seu filho, de 22 anos, que colabora na parte técnica da peça, mas já se apresentou em Curitiba e São Paulo, onde recentemente também fez uma apresentação em uma favela.
Questionada sobre a sua impressão em mostrar a peça a um público tão carente, ela disse que a experiência foi gratificante e que as pessoas se identificaram e divertiram muito com a ''Jeanne''. ''A personagem é a mais pobre que possa existir e fala de emoções que são comuns a todos, como solidão, o desejo de ser herói, que independem da classe social. A peça permite diversas leituras e os mais intelectualizados normalmente fazem metáforas do que estão vendo'', destacou.
Apesar da sua origem estrangeira, Gardi adianta que durante a peça das dez palavras que terá que dizer, ''todas serão ditas em português'', comentou a atriz com um sorriso maroto que lembra muito o da sua personagem.
Na sua terra natal, Gardi já conquistou o status de figura popular, com ela e seus personagens sendo lembrados em esculturas, marionetes, trabalhos escolares, carnaval e shows de televisão. Na celebração do 700 anos da Suíça, era ela quem estava lá, vivendo um bobo da corte que limpou o Parlamento Suíço. ''Jeanne'', com certeza, ficou feliz em saber até onde um anti-herói conseguiu chegar.
EU E A PERSONAGEM
Gardi Hutter fala do trabalho em Jeanne DArPpo
A gente nunca sabe exatamente o que vai acontecer, do que ou quando as pessoas irão rir. Só sei que de repente o milagre acontece, falou em entrevista coletiva à imprensa ontem, na Casa do Filo.
O objetivo do espetáculo, segundo ela, é atingir as emoções profundas da humanidade e fazer do clown algo mais arcaico possível. É o simples que todas as crianças reconhecem e também atinge os adultos.
- FICHA TÉCNICA:
Dramaturgia: Gardi Hutter e Ferruccio Cainero.
Direção: Ferruccio Cainero. Classificação: Livre.
Elenco: Gardi Hutter.


