FESTIVAL - Um transgressor chamado Manoel de Oliveira
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 01 de setembro de 2003
Carlos Eduardo - Lourenço Jorge <BR>De Veneza-Especial para a Folha2 
Manoel de Oliveira não está absolutamente preocupado com os impasses globalizados vividos nestes tempos entre a previdência do Estado e os candidatos à beira da aposentadoria. Aliás, esta é a ultima coisa que deve passar pela cabeça deste garoto prodígio que teima, quase centenário, em ser precoce às avessas. Seu trabalho mais recente nunca se refira a seu último filme é Um Filme Falado, um dos sérios candidatos a prêmios nesta 60ªMostra Internazionale dArte Cinematografica que entra agora em sua metade decisiva.
O que fez desta vez o mestre? Teórica e praticamente o mesmo. Tudo como sempre, mas diferente. Humanista descarado, Oliveira é via de regra um acadêmico formal, quase estático na sua relação entre cinema e teatro. Pois agora acrescente-se: ao descaramento de um autor acadêmico e formalista foi incorporado o atrevimento. Sim, porque a seqüência final de Um Filme Falado é de uma ousadia e uma transgressividade desconcertantes.
A helênica Leonor Silveira, uma das mais belas deste festival, é a professora de História da Universidade de Lisboa que viaja em cruzeiro marítimo com a filha pequena. O destino final é Bombaim, onde o marido, piloto civil, deve encontrar as duas para seguirem em férias. Durante a viagem, escalas estratégicas para Oliveira discorrer sobre os primórdios da civilização ocidental Grécia, França, ruínas de Pompéia, Egito, Istambul. Em cada porto uma sintética mas essencial lição de História, transmitida com carinho e aprendida com atenção.
No navio, três mulheres famosas já na meia-idade, uma grega, outra francesa, a terceira italiana, cada uma falando a sua língua. A primeira é Irene Papas, cantora famosa; Catherine Deneuve é a empresária bem-sucedida, e Stefania Sandrelli faz a ex-modelo, símbolo de sabedoria existencial e do gosto pela vida. As três são convidadas para jantar na mesa do capitão, John Malkovich, americano de origem polonesa que fala o inglês, a língua universal contemporânea. Com elegância, cultura e discrição cada um fala de si e, por conseqüência, dos próprios países.
Mas um aviso interrompe a agradável noitada. Na última parada, terroristas colocaram bombas de tempo no navio, que deve ser abandonado com calma, mas imediatamente. A garotinha portuguesa esquece a boneca no camarote e mãe e filha acabam ficando sozinhas a bordo, enquanto todos os passageiros já estão a salvo nos botes salva-vidas. O navio explode matando o presente (a jovem professora), o futuro (a garotinha) e a fantasia (a boneca). O filme encerra com um plano fixo mostrando o capitão Malkovich com uma expressão de horror.
O refinamento, a beleza das imagens, a inteligência da visão crítica da civilização ocidental, a eloqüência significativa desta última jornada uma viagem simultânea ao princípio e ao fim do mundo , a finesse que transforma em emblema três das mais populares atrizes, a sofisticação carregada de simplicidade. Na entrevista coletiva, Manoel de Oliveira sintetizou seu pensamento sobre a vida e sobre seu filme: O presente não existe, vivemos entre as lembranças e a esperança, devemos estar atentos para não repetir o passado e evitar as ameaças do futuro.
Portador da síndrome fértil de Matusalém, o mestre já avisou: não vai parar por aqui. Renovou publicamente a amizade com o produtor Paulo Branco e fez votos para que os espectadores de todos os países, quando assistirem a Um Filme Falado, possam se divertir um pouco, mas sem se esquecerem que a vida é sempre uma trama feita de sorrisos e medo.


