Manoel de Oliveira não está absolutamente preocupado com os impasses globalizados vividos nestes tempos entre a previdência do Estado e os candidatos à beira da aposentadoria. Aliás, esta é a ultima coisa que deve passar pela cabeça deste garoto prodígio que teima, quase centenário, em ser precoce às avessas. Seu trabalho mais recente – nunca se refira a ‘‘seu último filme’’ é ‘‘Um Filme Falado’’, um dos sérios candidatos a prêmios nesta 60ªMostra Internazionale d’Arte Cinematografica que entra agora em sua metade decisiva.
  O que fez desta vez o mestre? Teórica e praticamente o mesmo. Tudo como sempre, mas diferente. Humanista descarado, Oliveira é via de regra um acadêmico formal, quase estático na sua relação entre cinema e teatro. Pois agora acrescente-se: ao descaramento de um autor acadêmico e formalista foi incorporado o atrevimento. Sim, porque a seqüência final de ‘‘Um Filme Falado’’ é de uma ousadia e uma transgressividade desconcertantes.
  A helênica Leonor Silveira, uma das mais belas deste festival, é a professora de História da Universidade de Lisboa que viaja em cruzeiro marítimo com a filha pequena. O destino final é Bombaim, onde o marido, piloto civil, deve encontrar as duas para seguirem em férias. Durante a viagem, escalas estratégicas para Oliveira discorrer sobre os primórdios da civilização ocidental – Grécia, França, ruínas de Pompéia, Egito, Istambul. Em cada porto uma sintética mas essencial lição de História, transmitida com carinho e aprendida com atenção.
  No navio, três mulheres famosas já na meia-idade, uma grega, outra francesa, a terceira italiana, cada uma falando a sua língua. A primeira é Irene Papas, cantora famosa; Catherine Deneuve é a empresária bem-sucedida, e Stefania Sandrelli faz a ex-modelo, símbolo de sabedoria existencial e do gosto pela vida. As três são convidadas para jantar na mesa do capitão, John Malkovich, americano de origem polonesa que fala o inglês, a língua universal contemporânea. Com elegância, cultura e discrição cada um fala de si e, por conseqüência, dos próprios países.
  Mas um aviso interrompe a agradável noitada. Na última parada, terroristas colocaram bombas de tempo no navio, que deve ser abandonado com calma, mas imediatamente. A garotinha portuguesa esquece a boneca no camarote e mãe e filha acabam ficando sozinhas a bordo, enquanto todos os passageiros já estão a salvo nos botes salva-vidas. O navio explode matando o presente (a jovem professora), o futuro (a garotinha) e a fantasia (a boneca). O filme encerra com um plano fixo mostrando o capitão Malkovich com uma expressão de horror.
  O refinamento, a beleza das imagens, a inteligência da visão crítica da civilização ocidental, a eloqüência significativa desta última jornada – uma viagem simultânea ao princípio e ao fim do mundo –, a finesse que transforma em emblema três das mais populares atrizes, a sofisticação carregada de simplicidade. Na entrevista coletiva, Manoel de Oliveira sintetizou seu pensamento sobre a vida e sobre seu filme: ‘‘O presente não existe, vivemos entre as lembranças e a esperança, devemos estar atentos para não repetir o passado e evitar as ameaças do futuro’’.
  Portador da síndrome fértil de Matusalém, o mestre já avisou: não vai parar por aqui. Renovou publicamente a amizade com o produtor Paulo Branco e fez votos para que os espectadores de todos os países, quando assistirem a ‘‘Um Filme Falado’’, possam se divertir um pouco, mas sem se esquecerem que ‘‘a vida é sempre uma trama feita de sorrisos e medo’’.

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