É, talvez, o show mais aguardado do 23º Festival de Música de Londrina. A expectativa para assistir à apresentação de hoje do Zimbo Trio é tanta que, ontem de manhã, alguns alunos das oficinas brincavam de cambistas no corredor do colégio Mãe de Deus, ponto de venda (antecipada) dos ingressos.
O show começa às 20h30 no Cine-Teatro Ouro Verde. A outra atração do dia no festival é o quarteto de saxofones A Plenos Pulmões, de Curitiba, que toca no Teatro Marista, a partir de 18h30. O Zimbo Trio traz na bagagem um repertório recheado de clássicos da música popular brasileira, com predominância de standards da Bossa Nova, movimento do qual foi participante nos anos 60.
Entre as composições pinçadas figuram ''Felicidade'' de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, ''Beatriz'' de Chico Buarque e Edu Lobo, ''Cidade Vazia'' de Baden Powell e Vinícius de Moraes, ''Incompatibilidade de Gênios'' de João Bosco e Aldir Blanc , ''Bebe'' de Hermeto Paschoal; ''Domingo no Parque'' de Gilberto Gil; e um pout-pourri de 12 canções de Milton Nascimento.
''Procuramos escolher músicas que, além de terem letras de qualidade, sejam boas principalmente em harmonia. Como não cantamos, preferimos as composições que nos permitam tocar à vontade, que nos ofereçam o sabor do improviso instrumental'' explica, em entrevista por telefone, o baterista Rubens Barsotti.
Ele, o pianista Amilton Godoy e o contrabaixista Itamar Collaço formam hoje o conjunto instrumental mais longevo do país. Só Collaço não faz parte do núcleo fundador original, gestado em 1964. Ele entrou no lugar de Luiz Chaves, que segundo o baterista ''saiu há dois anos para seguir seu próprio caminho''. O grupo surgiu como banda de apoio de cantores e cantoras estabelecendo-se posteriormente como referência para gerações de músicos.
Ao longo da carreira, lançou mais de 40 discos, 22 deles em países por onde tocou. Centrados, os componentes nunca sucumbiram aos modismos mantendo-se à margem do mercado com dedicação integral à música instrumental. A crítica especializada costuma situar o conjunto na origem do ''jazz brasileiro'' moderno (também chamado de ''música popular brasileira contemporânea instrumental'').
A estréia foi num show de Norma Benguel. Logo depois, os três músicos saíram em excursão pela América do Sul e Europa. Aos olhos do público, ficaram conhecidos em 1965, quando passaram a fazer o acompanhamento fixo do programa ''O Fino da Bossa'', da TV Record, apresentado por Elis Regina e Jair Rodrigues. A notoriedade levou-os a acompanhar por longas temporadas artistas como Elizeth Cardoso, Sebastião Tapajós e Leny Andrade.
O trio esteve presente em algumas das mais importantes gravações e apresentações ao vivo ocorridas entre o declínio da Bossa Nova e o Tropicalismo. Em 1973, fundaram o Centro Livre de Aprendizagem Musical (CLAM), responsável pela formação de um sem-número de talentos, entre os quais a pianista e cantora radicada nos Estados Unidos, Eliane Elias, hoje com prestígio internacional.
''Na época, éramos muito procurados para dar aulas particulares. Então decidimos criar o CLAM para propiciar uma vivência mais rica entre os jovens músicos que, em vez de estudarem isolados, poderiam aprender melhor ao se juntarem com outros instrumentistas. A proposta deu certo'' conta Barsotti. Apesar da solidez do trio, ele observa que a conjuntura econômica recessiva mundial tem prejudicado muitos projetos do grupo.
''Tivemos muitos shows no exterior cancelados nesta temporada'' diz, citando apresentações no Chile, em Portugal e uma série de 5 concertos com a Orquestra Sinfônica de Montevidéu (Uruguai). Para o baterista, a música instrumental brasileira conta com grandes artistas-solo, mas carece de formações coletivas. ''Não tenho visto muitos grupos'' nota. ''As exceções são o Mantiqueira e o Soundscape, que é uma big band que toca semanalmente no Ben Ben Club (casa noturna de São Paulo). O resto são grupos de acompanhamento de cantores como Caetano Veloso e Gilberto Gil''.
A um ano da celebração dos 40 anos de atuação, o Zimbo Trio prepara o lançamento de dois CDs ao vivo um será um tributo a Elis Regina trazendo gravações da fase em que os três acompanhavam a cantora e o outro será uma coletânea comemorativa ligada aos 35 anos de trajetória do grupo. ''Os dois discos estão em fase de masterização e devem sair nos próximos meses'' avisa ele.
Antes do Zimbo Trio subir ao palco do Cine-Teatro Ouro Verde, o quarteto A Plenos Pulmões se apresenta no Teatro Marista para executar peças de música de câmara apoiado em quatro saxofones e um repertório que reúne peças de Jean-Baptiste Singelée, Pierre-Max Dubois, Edmond Gaujac, Patrice Sciortino e Lino Florenzo.
Radicado em Curitiba, o grupo é formado por Rodrigo Capistrano (saxofone soprano), Abner Oliveira (saxofone alto), Marcio Schuster (saxofone tenor) e Carlos Alberto Stremel (saxofone barítono). Recentemente, conquistou o primeiro prêmio (com unanimidade do júri) no Concurso Bianca Bianchi durante o III Festival de Música de Câmara de Curitiba.
Como premiação recebeu convites para recitais no ano de 2003 em cidades do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba) e no exterior (Santiago de Chile).

HOJE NO FESTIVAL

Quarteto de Saxofones A Plenos Pulmões. Às 18h30, no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 240). Ingressos: R$ 4,00 (estudantes e idosos pagam meia entrada).
Zimbo Trio. Às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde. Ingressos: R$ 4,00 (estudantes e idosos pagam meia entrada).

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