Os músicos de uma orquestra passam dias e dias ensaiando determinada peça. Cada trecho que não tenha ficado ao gosto do maestro, deve ser retomado e repassado quantas vezes forem necessárias até que um nível próximo da excelência seja atingido.
Bem, se os instrumentistas ensaiaram tanto, no dia do concerto não há necessidade do regente estar presente com sua clássica batuta, certo? Errado. Tecnicamente dizendo, para que um imenso grupo de músicos siga à risca o tempo rítmico, o andamento indicado na partitura e a dinâmica, faz-se necessário uma pessoa que gerencie essa cadeia musical, e é aí que entra a figura do maestro.
Do italiano, maestro significa mestre, ou seja, conhecedor dos músicos e seus respectivos instrumentos. Em suma, sua principal obrigação é fazer com que o contingente inteiro toque em harmonia.
Para o regente Aylton Escobar, membro da Academia Brasileira de Música e professor do departamento de Música ECA/USP, a alma da orquestra é o maestro. ''Como são muitos músicos e cada um sendo uma personalidade distinta , quando reunidos numa orquestra, ao tocarem, provocariam a incompreensão do texto musical por parte dos ouvintes se não estivesse presente o maestro''. A comparação de Escobar elucida o conceito abordado: ''Cada ministério tem seu ministro, por isso, não seria necessário um presidente da República? Claro que sim''. Ainda percorrendo um sentido figurativo citado por Escobar, dada sua importância, o maestro representa o centro de uma mandala; a platéia seria um semicírculo, os músicos completariam a outra metade, e, o regente, o epicentro.
Entre centenas de movimentos e gestos, a mão esquerda de um regente deve estar livre para auxiliar na expressividade das frases musicais, enquanto a direita segura a batuta, designando o sentido objetivo do tempo musical.
O que muita gente não sabe também, é que as expressões físicas do maestro, em determinados casos como num conjunto semanal de ensaios, por exemplo o faz perder até mil calorias. ''Como já dizia Bertolt Brecht, você não deve sair do teatro do mesmo jeito que tenha entrado; tem de sair transformado''. Escobar revela que uma mesma sinfonia soa diferente quando muda de regente, por isso, cada um concede sua versão ao reger uma obra. ''O que um maestro consegue de uma orquestra é quase um milagre. Às vezes brinco, quando sei que algum músico não gosta de mim, e digo que ele pode até me odiar, mas terá de olhar para mim''.
A figura do maestro, tal como conhecemos atualmente, surgiu da necessidade de especializar um músico para promover o equilíbrio da massa orquestral que o romantismo desencadeou. Nos períodos anteriores, não existia personificado o regente, justamente por serem pequenos os conjuntos de instrumentistas. O equilíbrio fazia-se por concordância de todos.
Emílio De César, presidente da Associação Brasileira de Regentes de Coros, diretor artístico e maestro titular do Coral Evangélico de Brasília, responde ao questionamento incial com outra pergunta: ''Imagine cerca de cem pessoas querendo tocar cada uma num tempo diferente?''. Segundo ele, é primordial que a orientação seja de uma única pessoa, caso contrário não haverá unicidade. ''É um erro pensar que o maestro não é um músico''.
Quando as orquestras maiores não existiam, o spalla (primeiro violinista) era o regente das cameratas. ''O maestro pode não existir personificado, mas tenha certeza de que, caso ele não esteja aparente, algum dos instrumentistas é quem vai dar ordem aos demais''.
E situações engraçadas também não faltam em seus currículos. ''Certa vez, eu regi uma opereta na qual o cantor apareceu no palco e esqueceu a letra. Ele olhava para mim e eu gesticulava com a boca a música, mas ele não compreendia. Instalou-se o silêncio e tive que começar tudo de novo'', diverte-se Emílio.
Apesar de não tocarem nenhum instrumento durante os concertos, os regentes, merecidamente, viram-se para a platéia e recebem os aplausos.

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