FESTIVAL - Sob o ângulo da poesia
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sexta-feira, 09 de julho de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A cidade dos cartões-postais escondeu-se em takes inusitados. Tente desvendá-la no curta-metragem ''Londrina em Três Movimentos'', que estréia hoje no Cine-Teatro Ouro Verde como uma das principais atrações do 24º Festival de Música. A sessão começa às 20h30, seguido de um concerto do Madrigal Vocale.
O curta, de 15 minutos de duração, marca a estréia na direção do jornalista e escritor Rodrigo Souza Grota. A trilha sonora é de Arrigo Barnabé, com interpretação dos pianistas Paulo Braga e Karin Fernandes. Rodado em linguagem de documentário, o curta escapa ao padrão do gênero, prescindindo da narrativa em off e até da presença de seres humanos.
''O filme é puramente estético'' explica o diretor. ''Não tem nenhuma pretensão de encerrar uma verdade sobre Londrina. Em nenhum momento, pretendi ser realista ou objetivo. Foi feito a partir de um ponto vista subjetivo, sem qualquer conotação sociológica ou jornalística. A idéia era fazer uma investigação visual e poética da cidade, procurando revelá-la através de fragmentos''.
A idéia do projeto surgiu no ano passado, quando Grota percebeu que poderia realizar um filme a partir do sentimento que se tem ao ver a cidade vazia, desolada. Embora fosse perseguido pelo viés da melancolia, o realizador constata que o resultado fugiu às intenções. ''Em certos momentos, ele pode provocar estranhamento em razão da música densa e seca do Arrigo. E em outros, talvez cause encantamento pela beleza das imagens. Mas não é um filme triste'' diz.
No curta, os pontos turísticos de Londrina aparecem aqui e ali, mas ''ocultos'' sob enquadramentos que procuram fugir das imagens-clichês. O Calçadão, capturado em três tomadas de câmera, dificilmente será reconhecido pelo público. O mesmo ocorre com um take do Museu Histórico, registrado num dia de chuva. A equipe de produção levantou cerca de 300 locações, resultando em 2.500 fotografias que serviram de story-board para o diretor conduzir as filmagens.
Todo o processo durou dois meses e meio. Entre os pontos filmados constam a Biblioteca Pública, o Lago Igapó, a Mata dos Godoy, a Usina Três Bocas, o Vale Verde, os edifícios Centro Comercial e Júlio Fuganti, uma igreja abandonada do Patrimônio Regina, a cidade cenográfica utilizada para o filme ''Gaijin 2'' de Tizuka Yamazaki e o próprio Cine Teatro Ouro Verde. Mas nem todas as locações serão identificadas pelos espectadores, tal o recurso de esconde-esconde exercitado pelo diretor.
Ao todo, foram gravadas 40 horas, das quais foram pinçadas seis. Na peneirada final, entraram 15 minutos. Grota sonha em reunir as imagens excluídas num DVD, que incluiria também o making off das filmagens. A idéia, porém, esbarra na falta de recursos. ''Vou precisar de apoio empresarial para tocar esse projeto'' diz. O documentário mostra a cidade sob três perspectivas Natural, Concreto e Imaginário.
A primeira parte explora as matas, rios, cachoeiras e plantações da zona rural da cidade. A segunda concentra-se na arquitetura vertical do Centro. A última sequência enfatiza cenários noturnos (filmados entre 2 e 3 horas da madrugada), e o amanhecer com movimentos de máquinas industriais. O céu é onipresente no curta pontuando a sucessão de imagens. O diretor sublinha que boa parte dos takes foi selecionada com base nas pausas, climas e acelerações sugeridas pela música de Arrigo.
''Ocorreram alguns contrastes interessantes. Tem uma tomada de uma rua deserta da Vila Casoni, feita de manhã, que depois de casada com a trilha sonora resultou num clima meio macabro'' conta. Grota ressalta que embutiu algumas interferências de estúdio na edição final. ''O Godard dizia que todo bom documentário tende à ficção e toda boa obra de ficção tende ao documentário. Eu procurei brincar com as imagens para deixar dúvidas se aquilo que é mostrado é real ou não. A arte permite isso, ela nos dá liberdade para experimentar, para usar artifícios'' conclui.
Segundo o diretor, o próximo desafio além da produção do DV é a transposição para a película em 35 milímetros recurso recomendável para inscrevê-lo em festivais de cinema. O filme, uma realização da Mostra Londrina de Cinema, foi orçado em R$ 22 mil. A equipe gastou R$ 12,5 mil na compra da câmera Panasonic DVX 100 (a primeira digital a gravar em 24 frames por segundo, em processo análogo à película).
Além de Grota e dos músicos colaboradores, a ficha técnica traz participação de Anderson Craveiro (fotografia), José de Aguiar e Ygor Raduy (ambos na direção de arte), Francelino França e Mabel Gomes (ambos na direção de produção), Guilherme Peraro (assistente de direção), Bruno Gehring, Paulo Muzzolon e Priscilla Fujiwara (assistentes de produção) e William Barbini (edição).
Serviço:
- Exibição do filme ''Londrina em Três Movimentos'', seguido do concerto do Madrigal Coral. Hoje, às 20h30. no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos: R$ 6,00 (estudantes pagam meia-entrada). Ponto de venda: no local, a partir de 15 horas.


