FESTIVAL - Rússia, China e Itália estão longe dos leões
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quinta-feira, 08 de setembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza, especial para a Folha 2 
A não ser que ''O Jardineiro Fiel'' de Fernando Meirelles (exibido ontem à noite) e o último italiano, ''La Seconda Notte di Nozze'' (primeira exibição hoje cedo), sejam muito superiores aos outros dezoito concorrentes, o que parece descartado diante da linearidade da seleção deste ano, o Festival de Veneza sinaliza com o prêmio máximo na direção dos Estados Unidos, via George Clooney e seu elegante painel liberal dos anos 1950. Mas as especulações, projeções e prognósticos mais pormenorizados ficam mesmo para a edição de amanhã, dia em que serão conhecidos os vencedores em cerimônia noturna na Sala Grande do Palazzo Del Cinema.
Quarta-feira com feriado no Brasil, dia de trabalho dobrado na mostra por conta de uma extensa agenda de exibições pouco ou nada flexível, acumulando os obrigatórios filmes em concurso, os opcionais mas sempre atraentes títulos da seção paralela ''Orizzonti'' e os fora de concurso, estes secundários mas em todo o caso sempre à mão.
Precedidos de ainda maior expectativa tendo em vista o momento delicado, os filmes russo, chinês e italiano das ultimas jornadas, se não chegaram a ser desastrosos, também não foram lá muito animadores. ''Garpastum'' palavra russa para o latim ''harpastum'' significa uma espécie de jogo antepassado do futebol. E é sobre futebol, amor, sexo, guerra, pequenas e grandes ilusões de que fala este filme dirigido por Aleksey German Jr.
No início do século passado, na Rússia imperial, à beira do colapso político e social, quatro jovens formam um time de futebol, o tal ''garpastum''. Passam boa parte do tempo de projeção apanhando da bola em terreno enlameado. O diretor German Jr. procurou traçar um painel sobre a juventude e a perda da inocência diante de horrores como a guerra. Pretensioso, o filme é cinema de segunda com futebol de quinta, o que aumenta a decepção.
Muitas esperanças estavam colocadas nos ombros do chinês Stanley Kwan e de seu ''Changhen Ge'' ''O Canto da Eterna Saudade'', a tradução mais aproximada. Não é muito provável, no entanto, que o júri tenha se deixado influenciar por este melodrama glamouroso que atravessa quatro décadas na história de Shangai, desde o pós Segunda Guerra até o final dos anos 1980. A história segue a trajetória de uma bela e legendária mulher, desde os tempos de miss até os últimos dias de vida simples, detendo-se em suas relações infelizes.
O problema é que Stanley Kwan não tem o talento e a sensibilidade de Wong-Kar-wai, mestre que obviamente está muito adiante do discípulo. Kwan disse na coletiva que ''Changhen Ge'' é um conto sobre a velha Shangai, uma alegoria da moderna Hong Kong, sobre a situação universal das cidades e seus habitantes. O filme é até bom de assistir, tem lindas mulheres (Sammi Cheng), uma agradável trilha sonora sobrecarregada de hits americanos dos anos 40, 50, 60 (também aqui Kar-wai fez melhor, ''Amor à Flor da Pele'', estão lembrados?). Mas no todo o resultado não corresponde às intenções do diretor. É aquela velha história que se repete sempre, em Veneza, Cannes ou em Gramado: o filme de que se fala nas entrevistas e se coloca nos debates é sempre outro, superior, claro, àquele que está na tela.
Meno male. Embora a honra da casa ainda não esteja salva, ''La Bestia nel Cuore'' não é intragável. Mas está bem longe de ser premiável. Escrito (baseado no próprio romance) e dirigido por Cristina Comencini, filha do grande Luigi Comencini, o filme é sobre vários temas, temas demais até. O roteiro parte do mundo do cinema, visita a tevê e se detém em abuso sexual paterno. Depois fala sobre traição amorosa, envereda pela diversidade sexual pelo viés do lesbianismo. Volta então a concentrar esforços na temática da pedofilia, de onde não deveria ter ser afastado. O tom parece de thriller psicológico, mas não é. Sua verdadeira vocação é a de telefilme óbvio e de vôo rasante, dramaticamente esquemático, reiterativo, desrespeitoso para com a inteligência do espectador, aliás como era o concorrente italiano anterior, ''I Giorni dell'abandonno''.


