O efeito Toronto se espalhou pelo Lido de Veneza. Nestes últimos dias de festival, a efervescência da primeira semana e o frenesi dos paparazzi em torno das atrações hollywoodianas já não ocorrem mais na Itália. Desde ontem, a movimentação está centralizada no Canadá, onde outro mega-festival começou em Toronto. Parte considerável da imprensa americana e européia foi a reboque. Qualquer semelhança com o circo da Fórmula 1 não é mera coincidência.
Numa mesma noite, depois de quase cinco horas de projeção, duas certezas. Primeiro a má notícia: ao contrário de 2006, quando o filme-surpresa que veio da China ganhou o Leão de Ouro, este ano não brilhou a estrela de Marco Muller - diretor artístico do festival e mecenas despudorado de qualquer imagem que vem da Ásia -, e a surpresa foi um desastre.
''Mad Detective'', de Johnnie To e Wai Ka Fai, é um policial raso como centenas, apenas tecnicamente bem feito. É a história de um detetive que usa poderes extra-sensoriais para resolver casos difíceis. As vaias ao final da projeção, além de justas e merecidas, com certeza vão dar uma mãozinha na apreciação do júri oficial - este ano composto só de cineastas - excepcionalmente vendo o filme na sessão da crítica.
Felizmente o antídoto veio meia hora depois, com o esplendor de ''Nighwatching'': a vida de Rembrandt van Rijn, segundo o olhar erudito do inglês Peter Greenaway. O título se refere a uma das mais conhecidas obras-primas do genio holandês, ''Ronda Noturna'', título aliás impróprio e surgido de um equívoco, como mostra o filme que é parte de um projeto holandês que prevê ainda uma ópera e uma mostra completa, por contra dos 400 anos de nascimento do pintor.
A Itália encerrou de forma melancólica a participação na mostra competitiva. ''L'Ora di Punta'' (algo assim como a hora do rush), de Vincenzo Mara, é o relato convencional, burocrático, previsível da ascensão de um indíviduo sem escrúpulos. Nem a classe e competência de Fanny Ardant conseguem alterar o pífio resultado final.
O veterano e venerando Manoel de Oliveira entrou na categoria hors concours dos mestres convidados para este aniversário de 75 anos da mostra veneziana. Seu filme é ''Cristóvão Colombo - O Enigma''. Trata-se de uma arrojada alternativa: o navegante-descobridor genovês seria de fato Cristóvão Colón, nascido na pequena vila de Cuba, interior de Portugal, e portanto lusitano. A idéia veio do livro ''O Mistério Colombo Desvendado'', de Manuel da Silva Rosa e Eric James Steele.
O tal Silva Rosa, ao que tudo indica, não bate lá muito bem, mas o velho e crédulo diretor humanista fez a princípio um longa-metragem com duas horas de duração. Depois de pronto o filme, ele teria afinal se convencido quanto às suspeitas sobre o escritor e consequentemente com a fragilidade do argumento. O que restou em Veneza é um filme quase pueril e risível, uma narrativa frouxa reduzida para 70 minutos que nada acrescentam ao histórico brilhante do cineasta quase centenário.
Hoje quem recebe todas as homenagens do Festival de Veneza é Bernardo Bertolucci, um dos últimos gênios aqui da terra e antítese viva do irreconhecível cinema italiano contemporâneo.

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