Há exatos 50 anos, o júri da então incipiente mostra veneziana cometeria um dos maiores erros judiciários registrados pela memória dos festivais internacionais. Duas obras-primas do neo-realismo, ''Senso'' e ''La Strada'', respectivamente de Visconti e Fellini, ficaram de fora. Ganhou o opaco ''Romeu e Julieta'', de Renato Castellani, para quem a história do cinema reservaria para sempre discretas referências. Exemplos de tropeços de julgamento ao longo deste meio século só confirmam a regra de que os jurados de filmes falham sempre mais do que acertam em nome de conciliação/contemporização, terminando por validar indignidades. Espera-se que esta 61 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica seja exceção, e que a banca examinadora faça apenas a coisa certa - o jurado Spike Lee que o diga - e consagre os melhores de fato.
E quem são os melhores em Veneza-2004, um festival desde o início marcado pelo premeditado mas não controlado gigantismo, que acabou gerando confusões, tropeços, ira, ameaças e que tais? Entre os 22 filmes, o Leão de Ouro estará em boas mãos se for para ''Mar Adentro'', ''Vera Drake'', ''Binjip/Empty House'' ou ''Land of Plenty'', com ''Le Chiavi di Casa'' (o lobby da imprensa italiano é descarado) à frente de um segundo grupo teoricamente com menos chances. Não considerando aquele desvio de conduta regimental, que faculta dar prêmio de direção a quem não dirigiu o melhor filme (coisas do Oscar), Alejandro Amenábar, Mike Leigh, Kim Ki-duk, Wim Wenders e Gianni Amelio, que assinam os filmes acima, seriam os destinatários óbvios. O Prêmio Especial do Júri iria para um desses que não tivesse levado o Leão de Ouro.
Entre os atores a lembrança imediata, com corpos de vantagem, é Javier Bardem por ''Mar Adentro'', mas John Diehl por ''Land of Plenty'', Mathieu Amalric por ''Rois et Reines'' e Andréa Rossi por ''Le Chiavi di Casa'' não podem ser esquecidos, entre outros menos cotados. Entre as mulheres, o destaque indiscutível é Imelda Staunton por ''Vera Drake''. O assédio discreto vem de Lee Seoung-yeoun (''Binjip/Empty House''), Charlotte Rampling (''Le Chiavi di Casa''), Valeria Bruni-Tedeschi (''5 x 2'') e Reese Whiterspoon (''Vanity Fair''). Mas a torcida maior é para que não ocorra nenhum tropeço (mais um) da organização durante a cerimônia de premiação, este ano transferida para o histórico Teatro La Fenice, literalmente restaurado das cinzas de um incêndio que o destruiu quase por completo na década passada. E não esquecendo ainda que hoje é 11 de setembro...

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