FESTIVAL - Preciosos violões
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quinta-feira, 01 de dezembro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Uma das expressões máximas da música instrumental brasileira desembarca hoje na cidade. Atração do Londrina Jazz Festival, o Duofel se apresenta a partir de 20h30, no Teatro Marista, numa noite que contará ainda com shows do guitarrista Dino Rangel e dos músicos locais Eduardo Batistela, Ricardo Penha e Rodrigo Serra.
Formado pelo alagoano Fernando Melo (49 anos) e pelo paulistano Luiz Bueno (54 anos), o Duofel está divulgando o CD ''Precioso'', que acaba de lançar pelo Fine Music um misto de gravadora, editora e distribuidora fundada pelos dois. O disco chega às lojas como uma celebração dos 25 anos de trajetória, festejado em 2003 num projeto que envolveu ainda um DVD, lançado no ano passado.
O álbum é dedicado à cidade de Manaus traduzindo musicalmente seu cotidiano, costumes e lugares pitorescos. Composto por dez temas, traz novos timbres e combinações sonoras com a utilização pela primeira vez do violão de 10 cordas e do violão tenor. Autodidatas, Melo e Bueno não têm formação clássica tradicional, embora sua obra costumeiramente seja definida como uma simbiose do erudito com o popular.
Formados na estrada, iniciaram a carreira tocando em bailes e bandas de rock progressivo. Criaram o duo em 1977 lançando o primeiro disco dez anos depois. Respeitados no exterior, onde fizeram excursões pela Europa e Estados Unidos, cativaram admiradores ilustres. Um deles, o saxofonista Ornette Coleman, impressionou-se tanto com a dupla que a convidou para gravar em seu estúdio particular, no Harlem, em Nova York. Virtuoses do violão, trazem a Londrina o repertório do novo CD e do DVD comemorativos.
Além do Duofel, o palco do Teatro Marista recebe o guitarrista e compositor Dino Rangel, que atualmente acompanha o cantor Ednardo e a cantora Ithamara Koorax em shows pelo Brasil. A programação traz ainda o baterista Eduardo Batistela no Circo Funcart e o Duo Baixo Vibrafone, com Ricardo Penha e Rodrigo Serra, no Bar Valentino. Confira a entrevista com Luiz Bueno, do Duofel.
O que vocês vão tocar em Londrina?
Luiz Bueno Vamos mostrar um repertório especial para a cidade, que nos acolheu carinhosamente uns oito anos atrás, quando fizemos um show no Anfiteatro do Zerão. Foi um show memorável e inesquecível com participação do tablista indiano Badal Roy. Lembro que dizíamos que toda vez que o levávamos ao palco, chovia. E caiu um pé d'água naquele dia, mas logo parou. Hoje vamos lembrar um pouco daquela ocasião. O repertório vai reunir peças do novo CD e do DVD lançado no final do ano passado e que fazem parte de um mesmo projeto: a comemoração dos 25 anos do Duofel. E o show traz ainda um tratamento de luz de palco especial, feita pelo arquiteto londrinense Rafael Leão.
Vocês festejaram os 25 anos da dupla em 2003. Por que o CD ''Precioso'' só está saindo agora?
A demora ficou por conta das dificuldades do mercado brasileiro para a música instrumental. Nosso trabalho não é aceito pela grandes gravadoras. Por isso, decidimos fundar um misto de gravadora, editora e distribuidora para lançar nossos produtos.
''Precioso'' é resultado de uma viagem à floresta Amazônica?
Era para ser. Para a celebração dos 25 anos, pensamos num projeto que tivesse como ponto de partida uma revisão de nosso primeiro ano de trabalho como duo, quando saímos para o sertão nordestino atrás de elementos para constituir nossa identidade musical, nosso conteúdo artístico. Fomos de Brasília, levando nossos instrumentos, dois banquinhos e uma barraca. Em 2002, um ano antes da comemoração, viajamos com destino à floresta amazônica com o propósito de reproduzir aquele tipo de vivência e emoção para depois traduzirmos a experiência num conteúdo artístico. E por que a floresta amazônica? Porque se temos algo de significativo para a humanidade, ele se encontra ali. A idéia era fugir da rota turística e buscar a essência da floresta contando para isso com meu irmão, que é geólogo e mora em Manaus. Mas chegando lá, fomos reconhecidos por um fã (Braguinha), que logo ligou para outros fãs e músicos da região. No mesmo dia, já nos convidaram para fazer shows, inaugurar teatro, participar de programas especiais em rádios e televisão, dar entrevistas em jornais. Logo estávamos envolvidos na vida artística da cidade. Acabamos ficando 20 dias em Manaus. O episódio nos revelou que, para falar com propriedade da floresta amazônica, teríamos que ficar mais de um ano por lá e não alguns dias. A experiência em Manaus, no entanto, poderia ser traduzida em músicas. No disco, as faixas retratam retratam o cotidiano, costumes e os lugares pitorescos da cidade.
Foi uma surpresa encontrar fãs naquela região do País, quando se sabe das dificuldades da comercialização e distribuição de discos de música instrumental no Brasil?
Na verdade, já tínhamos sinais do potencial da música, da capacidade que ela tem de se propagar para além de nossa imaginação. Anos atrás, fomos surpreendidos ao saber que o Duofel era cult nos guetos brasileiros de Londres. Ainda não tínhamos sequer lançado nosso primeiro disco, mas as pessoas conheciam nosso trabalho através de uma fita cassete gravada num programa da Rádio USP. Há dois anos, tivemos outra surpresa quando fomos contratados para tocar numa praça pública no sertão de Alagoas. As pessoas descalças, algumas trazendo discos para autografarmos, foi emocionante.
O que esse novo disco traz de diferencial em relação aos anteriores?
O disco traz algumas inovações. Além do violão de nylon, do violão de 12 cordas e o de cordas de aço, introduzimos agora a viola caipira de 10 cordas e um violão tenor de 4 cordas que é utilizado pelos chorões e foi imortalizado nas gravações de Garoto. Há ainda uma peça em que tocamos com arco. Tudo isso enriqueceu os timbres e criou uma sonoridade nova.
O Hermeto Pascoal fez o show de abertura do Londrina Jazz Festival. Qual foi a importância dele para o Duofel?
Ele é o padrinho espiritual de todos os músicos. É um ser, uma divindade da música que todos almejam conhecer e o que dirá tocar com ele. Para dois músicos autodidatas que nunca pisaram em nenhuma escola de música, conhecer e trabalhar com Hermeto foi como ir direto para a Universidade. Ele foi um divisor de águas em nossa carreira abrindo nossa cabeça para a liberdade total de criação. Um dia, ele falou: ''Vocês são grandes mentirosos. Não são duo coisa nenhuma. Eu fecho os olhos, e ouço um quarteto, um quinteto, uma banda. Vocês deveriam mudar o nome para Trio Duca''.
Serviço:
- Hoje Londrina Jazz Festival 2005
- Show de Eduardo Batistela. Horário: 19h30. Local: Circo Funcart (Rua Souza Naves). Ingresso: 1 kg de alimento não perecível.
- Shows de Duofel e Dino Rangel. Horário: 20h30. Local: Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 241). Ingressos: R$ 10,00 + 1 kg de alimento não perecível e R$ 5,00 (para estudantes e aposentados) + 1 kg de alimento não perecível.
- Show de Ricardo Penha e Rodrigo Serra. Horário: 22 horas. Local: Bar Valentino (Av. Bandeirantes, 61). Ingresso: 1 kg de alimento não perecível.
- Atenção: os ingressos devem ser retirados antecipadamente mediante a doação de alimentos na loja Sonkey Video Som (Rua Souza Naves, 29, térreo do Edifício Júlio Fuganti). Mais informações no site www.londrinajazzfestival.com.br. O Londrina Jazz Festival é uma realização da Madame-X Produções e Eventos (www.madamex.com.br) e conta com patrocínios do Ministério da Cultura, Milenia Agrociências e Prefeitura Municipal de Londrina (Promic).


