FESTIVAL - PLURALIDADE SONORA
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quarta-feira, 19 de julho de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A gaita, instrumento historicamente subestimado no Brasil, salta para a frente do palco em Londrina. De hoje a sábado, o 26º Festival de Música sedia o ''Encontro de Gaita de Boca'', que será comandado pelos curitibanos da Troupe da Gaita, sempre a partir de 14 horas, no Colégio Evaristo da Veiga.
O grupo foi fundado há mais de dez anos pelo gaitista Ronald Jr. e chega ao Norte do Estado para mostrar a versatidade da harmônica. Além de cumprir a agenda didática, seus integrantes farão três apresentações na cidade: hoje, às 11h30, no Saguão da Prefeitura Municipal, e às 23 horas no João Sebastião Bar; e amanhã, às 12 horas, no Calçadão da Avenida Paraná.
Ainda nesta quinta-feira, o Festival traz apresentações do quarteto de trompos ''Quartet Mania'', além dos vencedores do Concurso Nacional Jovens Cameristas e da Orquestra de Câmara Municipal de Boa Vista (Roraima). É a movimentação dos gaitistas, porém, que poderá atiçar filas de curiosos.
A Troupe sobe aos palcos com Ronald (harmônica), Benevides Chiréia (harmônica), Alexandre Kozlowski (harmônica), Gilberto Passos (harmônica), André Pereira (harmônica), Jonas Motin (harmônica), Marcelo Ricciardi (violão) e Paulo Mendes (percussão). O repertório reúne composições de diversos gêneros musicais incluindo choro, tango, samba, erudito, bolero, blues e sertanejo de raiz.
Entre as composições figuram ''Trenzinho do Caipira'' (Heitor Villa Lobos), ''What Is This Thing Called Love'' (Cole Porter), ''Apanhei-te Cavaquinho'' (Ernesto Nazareth), ''A Pantera Cor de Rosa'' (Henry Mancini), ''Amarcord'' (Nino Rota) e ''Don't Get Around Much Anymore'' (Duke Ellington) e ''Insensatez'' (Tom Jobin, Vinícius de Moraes).
Os arranjos musicais, especialmente elaborados para a harmônica, exploram todas a pluralidade sonora do instrumento. A Troupe interpreta desde uma composição originalmente escrita para um solo de violino, até peças arranjadas para bandas de metais. Desde abril, o grupo vem recusando convites para shows por estar gravando seu primeiro CD. ''A participação no Festival é uma exceção, porque estamos racionalizando a agenda. Por causa do CD, suspendi até os ensaios'', conta Ronald.
O plano é concluir a etapa de gravações em agosto para em seguida trabalhar a mixagem, a capa e a parte burocrática dos direitos autorais. ''Ouvi alguns temas de uma cópia pré-mixagem e gostei muito. O trabalho está satisfatório'', diz. O grupo já tocou na região integrando projetos como o ''Comboio Cultural'' e o ''Impressões Sonoras'' séries de shows organizada pela Secretaria da Cultura do Estado do Paraná para cidades do interior.
Na ocasião, passou despercebido por boa parte do público, que agora terá outra chance para ouvir o sexteto de gaitas. Confira a entrevista com o gaitista Ronald Jr.
Como surgiu a idéia de criar um grupo de gaitas?
Eu fundei e fui coordenador da Orquestra Harmônica de Curitiba durante 22 anos. Por volta de 1992, organizei oficinas com a intenção de reciclar os músicos através do intercâmbio com harmonicistas de todo o País e convidados do exterior. No início eram cursos rápidos que, depois, foram se transformando em laboratórios durante o ano todo. Os encontros ocorriam em meu apartamento. Com o tempo decidi fazer arranjos, montar um grupo e tocar. Passamos por dificuldades, com troca de integrantes e interrupção das atividades. Em 1997, conseguimos reaglutinar os músicos e dar continuidade ao trabalho. Para manter a formação estável, contamos hoje com dois músicos-coringas, que substituem aqueles que por um problema ou outro não podem cumprir os compromissos da banda. Em 2000, deixei a Orquestra para priorizar a Troupe.
É comum associar a gaita ao blues. Vocês têm um gênero musical preferido, que domina o repertório do grupo?
Não temos vínculo com qualquer escola ou gênero musical. Tocamos o que se adapta bem à gaita, seja bolero, samba, choro ou música de concerto. A proposta do grupo é mostrar como ficam temas de Valdir Azevedo, Liszt ou Bach executados na gaita. Também não fazemos concessões ao mercado, às massas. Apresentamos composições em arranjos sofisticados que têm a harmônica como instrumento principal. Não tocamos música para encher estádios de futebol. Um público de elevador já é meia-lotação.
Como está a gravação do primeiro CD da Troupe?
Gravei 3 LPs e 5 CDs com a Orquestra Harmônica, mas cometi algumas gafes que não quero repetir agora. Claro que nunca ficamos totalmente satisfeitos, sempre vamos achar que poderíamos ter feito melhor. Mas acho que, naquela época, não estávamos preparados. Fomos levados pela pressa e o desespero de colocar os discos no mercado. O resultado é uma colchas de retalhos. Não quero mais fazer mágica. Ouvi alguns temas pré-mixagem de nosso disco e gostei. O problema é que não temos estrutura de grande gravadora, não temos equipe de marketing nem advogados para lidar com a questão dos direitos autorais. Temos que fazer tudo sozinhos gravação, mixagem, capa e o resto. E isso demanda tempo.
Você considera a gaita um instrumento subestimado no Brasil?
Isso ocorre no Brasil, porque não temos a amplitude cultural de outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, os solistas se apresentam no Carneggie Hall executando peças de jazz e de música erudita. Aqui temos grandes nomes, como Rildo Hora, Maurício Einhorn, Edu da Gaita, Fred Williams (morto recentemente) e outros. Mas todos são desconhecidos do grande público. Há solistas de orquestras no restante do mundo. Aqui, se falar em fazer um concerto com uma orquestra, o maestro fica arrepiado.


