FESTIVAL - Pirandello à flor da pele
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quinta-feira, 02 de junho de 2005
Francismar LemesReportagem Local 
De uma flor de texto, como o do italiano Luigi Pirandello (1867-1936), brota o perfume cáustico e patético da triste condição humana. O monólogo ''A Poltrona Escura'', apresentado pelo ator Cacá Carvalho, surge luminoso de humor, murchando no amargo amor com que o autor rega as relações.
Espetáculo de abertura do 38º Festival Internacional de Londrina hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, ''A Poltrona Escura'' tira as pétalas do homem contemporâneo nas três novelas do monólogo: ''Pés na Grama'', ''O Carrinho de Mão'' e ''O Sopro''.
Andar pelos textos no monólogo é entrar no abandono da viuvez, na submissão dos pais aos filhos e na solidão no terço final da vida no primeiro conto. ''O Carrinho...'' traz o homem amarrado ao sucesso, carregando nas costas a condição humana de um inconfessável prazer. O espetáculo também incide sobre o poder de matar, que murcha o outro em um sopro - epidemia do mundo moderno.
Ganhador do Prêmio Shell 2003 na categoria melhor ator com o monólogo, a peça também foi destaque na avaliação da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA -, como uma das seis melhores do ano.
O paraense Cacá Carvalho planta o texto no chão, como quem constrói castelos no ar da abstração teatral, com o rigor dos que acreditam no teatro, apesar de representar em outros meios - na TV interpretou ''Jamanta'' na novela global ''Torre de Babel'' - por diversão, sobrevivência. Pelas mãos da comparação, teatro é como a esposa: as outras expressões são amantes. Porém a esposa é especial.
Como uma flor e nada menos na concepção de Cacá, os três textos pirandellianos reunidos no espetáculo exalam na primeira novela um perfume doce, mas terrível. O humorismo desabrocha com luminosidade, murchando até morrer no escuro caído entre os dois últimos textos.
No jardim em que se deita a intimidade humana de Pirandello, autor que não começou escrevendo para teatro, mas contos, alimentado pelo projeto de escrever uma novela para cada dia do ano, o monólogo invadiu o que há de amável e contundente - como na tragédia pessoal em sua singularidade, que rouba os propósitos e ideais da vida de qualquer pessoa. Basta um único dia.
''Pirandello conseguiu escrever cerca de 240 textos, sendo que grande parte da sua dramaturgia vem de contos. Alessandro d' Amico, professor que tem os direitos da obra do autor em todo o mundo, nos orientou que começassemos o trabalho por eles. Entre a escolha e a memorização em italiano levei um ano e mais dois meses para aprender a dizer em português, estreando em 2003 no Sesc Belenzinho'', lembra Cacá.
''É um espetáculo simples enquanto encenação com pesquisa espacial e de partituras físicas e vocais fortes para que o espectador veja tudo sem ver nada.'', afirma.
Além de temporadas paulistas, ''A Poltrona Escura'' foi apresentado no Salão Nobre da Embaixada Italiana, em Brasília (DF) - uma prova para o ator, que viu o público alterado por Pirandello. A peça voltou à gênese, com quatro temporadas italianas. A última em março, com 40 espetáculos em nove cidades.
Cacá encenou na casa do autor, em Roma, onde hoje é o Istituto di Studi Pirandellianni. ''Ali alguma coisa aconteceu comigo, com o ator e meu trabalho diante do armário, o chapéu, suas roupas, a farda que vestiu para receber o Prêmio Nobel, as fotos...Aquilo ali estava no meu espetáculo e em mim. A neta dele, que sofre de uma doença degenerativa também não pode assistir. Disse ao d'Amico, esposo dela, que escolhesse uma das novelas que no dia seguinte iria apresentar na casa do casal'', lembra. Ele ouviu Maria Luiza dizer:
''Meu Deus quanta dor''..''Uma beleza como essa, eu não conhecia...'' ''Que pena eu não ter tempo suficiente para ler toda a obra. Tudo o que eu li era do ponto de vista da neta que via a avó sendo internada pelo avô. Agora entendo porque ele retrata o homem dessa maneira'', assinala.
O encontro com Pirandello começou em 1994, quando encenou o primeiro texto do autor. ''Fiz um espetáculo escrito para dois atores e que meu diretor, Roberto Bacci, adaptou para um ator. Era 'O Homem com a Flor na Boca', que apresento até hoje no Brasil''.
Cacá abre um parênteses no mundo contemporâneo para pôr o que mais gosta de Pirandello. ''Ele fala de temas com que tenho afinidade e disseca a contemporaneidade, o patético, o divertido e o triste que existe na condição do homem contemporâneo. Somente a reflexão sobre o homem pode levar ao crescimento'', afiança Cacá.
Produzido pela Fondazione Pontedera Teatro e Istituto Italiano di Cultura, a direção de Roberto Bacci e o trabalho do ator co-existem pelo impacto de duas pessoas. ''O trabalho todo foi sendo desenvolvido através de exercícios para descobrir como se relacionar com objetos. Como ser um ilusionista sem o recurso da mímica, sem apoio de grandes aparatos cênicos, como criar o artifício em você. Há 18 anos trabalhamos juntos, existindo um impacto entre duas pessoas, que crescem juntas através do teatro'', enumera Cacá.
Bacci ajudou o ator a levar para o palco, o Cacá, que se expõe num refinamento técnico. Ele não é como aqueles que se vestem de índio, chegando à conclusão de que ninguém olhou. A identidade em Pirandello, é mais que isso.
''Não escolhi ser ator só me para apresentar. Isso é muito tristeza'', conclui Cacá assinado por Pirandello.
Saiba mais sobre " A Poltrona Escura"
Hóspede da casa de Roberto Bacci em Pontedera, o ator Cacá Carvalho pegou na mão a geografia do lugar para transportá-la ao espetáculo ao ensaiar as cenas naquele endereço.
A idéia de ensair na casa do diretor surgiu depois que o teatro onde o trabalho era realizado foi cedido para uma companhia. Os espaços que usamos são um pouco da minha casa também. As portas estão no mesmo lugar. Tudo para tornar visível o invisível. É uma tarefa maravilhosa e difícil fazer com que um espaço se transforme em lugares, comenta Cacá.
O público também deverá ficar atento à iluminação de Fábio Retti, que ajuda a história a morrer. No final do espetáculo, o personagem morre. A questão era como deixar morrer também o espetáculo. A primeira proposta seria apagar a luz. Uma coisa óbvia e simplista. Porém, de quantas formas se pode apagar a luz? Optamos em fazer com que a luz fosse num ritmo e o ator noutro sem apagar a luz. As pessoas ficam tocadas, explica o ator.(F.L.)
Serviço:
- Espetáculo: ''Poltrona Escura''
- Horário: 22h30
- Local: Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85)
- OBS - ingressos R$ 10,00 na bilheteria central: Shopping Royal Plaza (Rua Maranhão, 240)
Autor: Luigi Pirandello
Elenco: Cacá Bacci
Dramaturgia: Stefano Geraci
Tradução: Silvia Pasello
Cenário e figurino: Márcio Medina
Iluminação: Domingos Quintiliano
Operação de luz: Fábio Retti
Produção executiva: Malu Pessin
Espetáculo produzido pela Fondazione Pontedera Teatro e Istituto Italiano di Cultura de São Paulo


