O Festival de Veneza entrou ontem em sua metade final, e com balanço positivo. O fim de semana, ainda que massacrante no usufruto da múltipla oferta, foi um desfile de bons títulos, à altura da tradição do evento. E os filmes ''made in USA'', apesar de preventivamente postos em quarentena em decorrência do numero abundante de selecionados, traíram a desconfiança inicial e se abriram generosamente à uma produtiva reflexão. Trouxeram ainda à tiracolo, para efeito de regozijo à flor da pele, uma extensa galeria de rostos que os paparazzi não se cansam de explorar.
Paulo Haggis, duas vezes Oscar (roteirista em ''Menina de Ouro'' e roteirista-diretor de ''Crash''), é o autor de ''In The Valley of Elah''. Ele disse na coletiva que o filme é ''uma investigação social e emotiva sobre o stress de pós-combate'', e que é sobre qualquer guerra, e não contra especificamente a do Iraque. Tem e não tem razão. Mas isto não importa muito. O que vale é a investigação que o filme conduz. Aliás, duas.
Uma é o assassinato praticado. O soldado filho de Tommy Lee Jones, recém-chegado do Iraque, é encontrado morto. Isto é, pedaços dele são achados próximos a uma base militar. Jones, militar reformado, e a mulher Susan Sarandon, não se conformam com a perda de outro filho, o último, e buscam os fatos até as últimas consequências. Charlize Theron (sublime desglamour) é a policial-detetive que vai até o fim para saber a verdade. Que, a propósito, é aquela que a qualquer custo deve ser varrida para baixo do tapete.
A outra linha investigativa caminha de olho na mídia e nas atrocidades ocultadas. Os Estados Unidos contemporâneos, das barreiras de poder e das lacunas de informação, estão na linha de fogo liberal de Haggis, aquele mesmo fogo que outro filme, ''Michael Clayton'', disparou contra as corporações há poucos dias aqui mesmo no festival.
Tommy Lee Jones, sobre quem é impossível se referir sem citar razão e sentimento, é o solitário Davi que combate Golias e seu exército no vale de Elá, na descrição bíblica. E ao final da batalha, a um só tempo patriota ressentido, pai envergonhado e devastado pela dor, hasteia a bandeira esfarrapada e de cabeça para baixo.
Chegam a ser divertidamente irritantes, a coerência ideológica e a inalterada boa qualidade dos filmes do inglês Ken Loach, que ganhou Cannes ano passado com ''O Vento que Balança a Cevada''. Trabalhando a média de um filme por ano, está ele aqui de novo em Veneza com outra investida na desorganização social do mundo, agravada pela globalização.
Ele e seu roteirista-cúmplice de dez anos, Paul Laverty, voltam a falar de working class, a classe trabalhadora que ambos tanto prezam. ''It's a Free World'' fala sobre a exploração da mão de obra estrangeira (ilegal, claro) na Inglaterra. A opção não foi o ponto de vista dos explorados, mas de quem explora. No centro da trama, duas mulheres, que ''comercializam'' os imigrantes como coisa normal. ''Em Londres vivem dois milhões de imigrantes, ou desempregados ou explorados, presos a um sistema econômico impiedoso'', diz Loach.
O diretor agora vai fazer tremer as bases do império oriental: ''No próximo filme vou investigar o que poderá acontecer na China pós Olimpíada. Um país que se diz comunista mas onde, em nome de uma eficiência santificada, os trabalhadores são escravizados, feridos, mutilados'', informa o últimos dos cineastas comunistas em atividade no planeta.
Woody Allen veio e surpreendeu. Pelo menos a quem esperava se divertir com uma comédia elegante e leve, especialidade dele. O que ele trouxe foi um drama sombrio, ''Cassandra's Dream'', a história de dois irmãos endividados e ambiciosos que cometem um assassinato a pedido de um tio rico.
Ewan McGregor e Collin Farrell lidam com o remorso e a culpa cada um a ser modo, mas crime e castigo são temas que funcionam melhor juntos que separados, pelo menos como dramaturgia. Um Woody Allen cabisbaixo e tristonho na coletiva era a própria imagem do filme, tão bom quanto qualquer outro de seus melhores.
E Brad Pitt saiu-se muito bem como Jessé James, o mítico fora da lei que fez história e acabou morto pelas costas por um amigo. ''O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford'' é um western trancado em si mesmo, introspectivo, lento, sem muita ação. Mas convence, tem classe, não é excessivamente verborrágico e marca com estilo a passagem de Pitt pelo festival.
Ele veio com a mulher Angelina e os quatro filhos. Estão anunciando um quinto. Na coletiva Pitt fez gênero, elogiou personagens maus, brigou com os fotógrafos por causa dos óculos escuros, disse que só casa com Angelina quando o casamento gay for amplamente permitido. E disse que seu Jesse James foi o mais empenhado de seus personagens. Mas não dever ser um hit de bilheteria.

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