Todo ano é a mesma coisa. A esta altura do jogo em andamento no 62º Festival de Veneza, enquanto o grande público se diverte - e muito - nas sociais e nas arquibancadas com o pródigo desfile de seus ídolos, principalmente americanos, na tela e no contato direto com direito a autógrafos e fricotes, a crítica põe a barba de molho à espera daquele filme que pode afinal desequilibrar, dando números definitivos ao placar. Até ontem, o diferencial ainda era o filme de George Clooney, se mantendo bravamente na ponta depois de oito dias de competição.
Quem chegou, estreou e venceu em Veneza, como selecionado fora de competição, foi o sempre extravagante Tim Burton, que trouxe seu universo poético e ultradark na animação ''The Corpse Bride'', ou ''A Noiva Cadáver''. O filme do sempre (im) previsível diretor de ''Eduardo Mãos de Tesoura'' e ''A Fantástica Fábrica de Chocolate'' recebeu calorosos aplausos na sessão para a imprensa e uma intensa ovação na sessão de gala para o público e na presença do realizador. Os jornalistas se divertiram muito com a adaptação de antiga fábula judeu-russa sobre um estranho casamento entre um jovem noivo vivo e uma jovem noiva e morta.
Rodado com a velha técnica do stop-motion - os mesmos 24 fotogramas por segundo, mas pela primeira vez captados com câmeras digitais e efeitos de computação gráfica -, ''A Noiva Cadáver'' oferece personagens com as vozes do ator-fetiche (e alter ego) de Burton, Johnny Depp, mais Helena Bonham Carter, Christopher Lee, Emily Watson e Albert Finney. Um cult, sem dúvida.
Na competição, depois de ''Espelho Mágico'', Portugal fez sua segunda e ultima aparição com ''O Fatalista'', reinterpretação do clássico ''Jacques le Fataliste'', de Diderot, assinada por João Botelho. O diretor tem trânsito frequente em grandes festivais, mas nunca com o brilho e a repercussão do mestre Manoel de Oliveira, sempre o grande nome do cinema lusitano nos últimos 100 anos. ''O Fatalista'' procura a reflexão sobre poder e luta de classes através de uma narrativa múltipla onde convivem, não necessariamente em harmonia, histórias de paixões, aventuras sexuais e diálogos filosóficos.
E a França também encerrou sua participação na caçada aos leões. O terceiro título, ''Vers le Sud'', manteve o bom nível da delegação gaulesa que desembarcou este ano em Veneza. O diretor Laurent Cantet tem sido o queridinho da crítica de seu país nos últimos cinco anos. Em parte com razão. Na história, três turistas americanas, entediadas com suas vidas, vão ao Haiti no início dos anos 1980 em busca de fortes emoções. É claro que encontram, na pele negra dos rapazes da região. Entre eles o jovem Legba. Ao mesmo tempo em que as mulheres encontram o que querem, entram em contato também com o outro lado do ''paraíso'' haitiano, feito de violência e pobreza.
Os temas eleitos por Cantet são obviamente o desfrute dos corpos, o turismo sexual, o abismo entre ricos e pobres, entre os hemisférios norte e sul. Mas as coisas não assim tão simples assim, e é possível vislumbrar águas mais profundas, como por exemplo o entrelaçamento entre desejo físico e sexual como metáfora política, a sexualidade como instrumento de poder político, social e econômico. Charlotte Rampling está magnífica como uma das turistas, dinheiro na mão, sexo em fogo, norte ao encontro do sul.
E o Brasil afinal pediu passagem. ''Árido Movie'', longa metragem de Lírio Ferreira (''Baile Perfumado'') fez sua estréia na seção paralela ''Orizzonti''. Os personagens Bob, Falcão, Vera e Soledade foram bem recebidos pelos críticos, que aplaudiram a história ambientada no nordeste árido onde convivem memórias, a falta d'água e o excesso de informação. O elemento água é o personagem mais importante, não só como fator de transformação social, mas metaforicamente como transformação existencial.
A expectativa agora é pela performance de Fernando Meirelles na direção de ''O Fiel Jardineiro'', que passa hoje à noite na competição.

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