FESTIVAL - O corpo em gotas de perfume
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de junho de 2005
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
O corpo é uma das primeiras inspirações da vaidade. Sem dispor dele, arrancando a carne do pudor, a alma nunca ficará nua, deixando ver a intimidade até os ossos.
Para o bailarino, Alex Dias, coreografo de Mundo Perfumado, que a companhia Primeiro Ato, de Belo Horizonte (BH), apresenta hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, a nudez completa da alma é o que diz um surrealista: o esqueleto é o nu integral.
Integralmente expostos, os bailarinos, através de uma marca nos 23 anos da companhia, interferiram na construção de Mundo Perfumado, numa exposição não só da técnica e do talento de um elenco heterogêneo, como da intimidade das suas experiências pessoais.
As palavras daquele surrealista ficaram na minha cabeça. Estava procurando a essência do movimento e pensei que, a partir do momento em que se explora esse esqueleto, consigo chegar a um lugar muito especial de como os movimentos acontecem pelos ossos, as conexões físicas, articulações do ombro, com outras estruturas. A partir disso, como o espaço se relaciona, interage com o corpo e como o corpo se relaciona com o esqueleto, transpondo o próprio físico, afirma Dias.
O esqueleto que nos carrega, leva nos ombros a alma com o peso das nossas escolhas. Um teste de fogo para os bailarinos, que tiveram que queimar os excessos das próprias experiências para chegar ao espetáculo.
Dentro do excesso optamos pelo essencial na montagem. Não é um espetáculo para ser pensado, mas sentido. Uma oportunidade para as pessoas se deliciarem, durante os 40 minutos de duração, com corpos em movimento, ressalta Suely Machado, oferecendo ao espectador mais de quatro estímulos numa cena para que o espectador deguste ou escolha a fragrância.
Ganhador do prêmio oferecido pelo Sesc/Seted nas categorias melhor espetáculo, trilha, iluminação, bailarino, bailarina, bailarina revelação e equipe técnica - que tem o respaldo de 20 anos na companhia - a trilha de Mundo Perfumado é assinada por André Abujamra.
Infelizmente, só tenho quatro espetáculos com trilha composta originalmente para a companhia. Encontrei com o André uma vez em Curitiba e falei do desejo de ter uma trilha dele numa coreografia. O trabalho com Mundo Perfumado começou com outra música. Ao convidá-lo, André disse que não queria fazer uma trilha para bailarinos dançarem, mas que queria construir em cima dos sentimentos despertados nele, já que tinha lhe proposto um espetáculo sensorial. Foi uma luta. O André é muito anárquico para criar, indo para outro lado diferente, sendo que a gente já tinha algo criado. Mas no final, todos nós saímos do lugar. Ele, eu, o Alex e os bailarinos, lembra Suely.
Ao se distanciar do que estava na pele, a companhia cortou a carne, esgotando a vaidade, que não circula pelo corpo do espetáculo. O que estará em cena é apenas o essencial de uma coreografia integralmente nua e sem pudores.


