FESTIVAL - O coração do cinema pulsa em Cannes
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terça-feira, 11 de maio de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 2 
Os ferozes sindicalistas da CGT francesa, de inspiração comunista, anteciparam que este 57º será ''um festival memorável'', mas não pela excelência das imagens. A prefeitura de Cannes já acionou um dispositivo anti-distúrbio, composto por 600 policiais, a fim de proteger o evento das manifestações prometidas por atores e técnicos temporários ou intermitentes, indignados com a lei que cortou benefícios sociais para os desempregados da categoria, que conta com 100 mil trabalhadores. Os cineastas Michael Moore e Agnès Jaoui, em competição, e a jurada Emmanuelle Béart, já disseram que se juntam aos protestos. Na melhor das hipóteses, os manifestantes vão usar os ressonantes espaços do festival como tribuna de reivindicações. Na pior, podem inviabilizar completamente a mostra ano passado eles impediram a realização do importante Festival de Avignon, e recentemente tornaram impraticável a cerimônia de entrega do Premio Molière aos melhores do teatro francês. Mas há disputas políticas internas, o que pode facilitar as coisas para o Festival.
Caso seja superado o impasse, a polêmica passa para a tela. Hoje, logo na abertura oficial, Pedro Almodóvar apresenta ''hors concours'' seu protesto contra a pedofilia na Igreja. Ele jura que não, mas a história dos dois meninos iniciados no sexo pelas vias clericais é a cara do escândalo carnal que continua a tirar o sono do Vaticano. ''La Mala Educación'' já andou na mira dos católicos fundamentalistas franceses, que pressionaram a distribuidora Gaumont a retirar os trailers na região de Montpelier. O filme também está estreando comercialmente hoje em território francês, e por mais que gostem de Almodóvar por aqui e gostam muito, bem mais que na Espanha a repercussão promete ser grande. Já no encerramento, dia 23, deve reinar a calma com a exibição, também fora de concurso, do musical ''De-Lovely'', de Irwin Winkler, sobre a vida do compositor Cole Porter.
E quem chega com uma bomba nas mãos é Michael Moore, selecionado para a competição com ''Fahrenheit 911'', depois do sucesso ano passado com ''Tiros em Columbine''. Desta vez o documentário, entre outras pedras no sapato da Casa Branca em ano eleitoral, propõe uma linha investigativa na direção de estranhas conexões entre a família Busch e a família Bin Laden. A Disney, empresa dona da Miramax, que financiou o filme, já disse que não fará a distribuição nem dentro nem fora dos Estados Unidos. No Brasil, a Europa filmes já garantiu o lançamento do filme, embora sem data confirmada.
Neste ano em que Cannes tenta apagar a péssima impressão deixada por um desastroso festival em 2003, a competição está polarizada entre asiáticos e resto do mundo, novos e veteranos talentos em seleção ''clássica e cosmopolita'' segundo o presidente Gilles Jacob ao todo são 56 filmes, 46 em estréia mundial , e um evento ''de descobertas e encontros'', na visão do selecionador Thiérry Frémaux. Dos 18 concorrentes, seis são do Japão (2), Coréia do Sul (2), China (1) e Tailândia (1). Da América Latina, os ''Diários de Motocicleta'' de Walter Salles, é co-produção entre Argentina, Brasil, Chile, Peru e Inglaterra. ''La NiÀa Santa'', da argentina Lucrecia Martel, tem participação da Espanha (leia-se Almodóvar). Há ainda filmes dos donos da casa (3), uma vez mais tentando recuperar a Palma. Há um diretor bósnio, Emir Kusturica, que particularmente aprecia colecionar prêmios máximos na competição.
Os alemães estão de volta à categoria principal, depois de vários anos. Os americanos são três, de ''Shreck 2'' aos irmãos Coen, passando por Michael Moore. A Itália sempre procura e encontra um nicho, e emplacou nova tentativa. O jogo está posto, façam suas apostas. Mas com cuidado, porque o júri este ano tem Quentin Tarantino na presidência. O homem, como se sabe, tem grande desenvoltura quando percorre trilhas orientais, e pode influenciar o restante do júri, a saber: as atrizes Emmanuelle Béart, Kathleen Turner e Tilda Swinton, o diretor americano Jerry Schatzberg, o diretor Tsui Hark, de Hong Kong, a escritora Edwige Danticat, o crítico finlandês Peter von Bagh e o ator belga Benoit Poelvoorde.
Este ano Cannes tem sabor bem Brasil. Além dos ''Diários de Motocicleta'' na linha de frente, o documentário ''Glauber, o Filme Labirinto do Brasil'' será exibido fora de concurso. Há um curta-metragem na briga pela Palma da categoria. É ôQuimera", de Eryck Rocha, filho de Glauber Rocha, um dos homenageados pelo Festival na retrospectiva paralela especial que comemora os 40 de Cinema Novo a partir da exibição em 1964, em Cannes, de ''Deus e o Diabo na Terra do Sol''. Outros nomes que recebem o reconhecimento durante a programação que vai desta sexta até terça, 18, são Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos e Luis Carlos Barreto. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, é presença confirmada.


