FESTIVAL - O Brasil estréia em Cannes
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terça-feira, 18 de maio de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Cannes<br> Especial para a Folha 2 
A quatro dias do final, o 57º Festival de Cannes até agora não elegeu como favorito nenhum dos títulos exibidos. Há melhores que outros, mas nada que justifique euforia líquida e certa, alguém já com a mão na Palma. Esta é uma das razões para aguardar com expectativa acima da média a exibição, hoje de manhã para a imprensa e à noite na gala de ''montée de marches'', de ''Diários de Motocicleta'', representante do Brasil via Walter Salles, mas de fato um filme com recursos materiais e humanos de várias procedências (Argentina, Chile, Peru e Inglaterra). Outra, e mais relevante, é a comprovada eficiência deste relato fascinante sobre a viagem iniciática que um jovem curioso e cheio de sonhos, um certo Ernesto Guevara e seu amigo Alberto Granado, fizeram pelas veias abertas da América Latina, em 1952.
Este ano, o Brasil pontifica não apenas na mostra retrospectiva especial dedicada ao Cinema Novo, com homenagens diárias a filmes e diretores - ''Dona Flor'' foi projetado para uma multidão em telão na praia ao lado do Palais; ''Vidas Secas'' e ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'' passaram na Sala BuÀuel. O curta-metragem ''Quimera'', assinado por Eryck Rocha, filho de Glauber, foi exibido ontem e disputa a Palma de Ouro da categoria. O presidente da Riofilme, José Wilker, lança aqui a Riofilme Commission, tentativa de atrair produções internacionais através do apelo ''Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa: Uma Cidade Cinematográfica''. O Festival do Rio, este ano de 23 de setembro a 7 de outubro, também promove assédio permanente à mídia internacional. E o Grupo Novo de Cinema e TV mantém stand no Marche du Film, com boas perspectivas de venda de títulos para o mercado internacional. Para todas essas atividades, o espaço tem sido generoso nos jornais e grandes revistas que circulam em edições diárias - Variety, Screen International, Hollywood Reporter, Le Film Français.
Depois de início estimulante, a seleção competitiva passou a alternar trabalhos mais ou menos compensadores. Há, por exemplo, uma evidente supervalorização do segmento asiático que é maioria na seção principal, exceção ao belo ''Ninguém Sabe'', do japonês Hirokazu Kore-Eda, e voto de confiança aos ainda inéditos ''Innocence'' e ''2046'', ambos esperados com impaciência. Dupla decepção diante dos transgressores sul-coreanos, que trouxeram produções duvidosas somente assimiladas por uma animada confraria de admiradores, especialmente da mídia francesa.
Incensos à parte, não há como avalizar ''Old Boy'', de Park Chang-wook, a história de uma vingança física e psicológica. Misture uma dose letal de sadismo a um argumento kafkiano e pronto, está servido o prato mais indigesto deste festival - sem mencionar um polvo, devorado vivo. Graficamente violento, com um argumento torcido e retorcido, este representante da ''nova onda'' coreana deveria entrar na categoria de ''nova brutalidade''. Há um homem, raptado e mantido prisioneiro por 15 anos sem que ele e o espectador conheçam o motivo. Libertado, este Charles Bronson elevado a intoleráveis níveis de crueldade, começa a rastrear pistas sem saber que há muito mais pela frente.
Outra entrada dispensável foi ''A Mulher é o Futuro do Homem'', e o interesse termina aí, neste título que autorizava esperar algo bem mais ironicamente substancial. Mas o argumento sobre dois amigos que se reencontram para recordar outros tempos e a mesma mulher não vai além de uma flácida comédia de costumes, apimentada pela adição sexo (em vez de uma, há logo duas cenas de felação) que um dos diálogos escritos pelo diretor Hang Song-soo acaba explicando: os coreanos só pensam em sexo porque não têm outra coisa para fazer.
''Comme une Image'', escrito, dirigido e interpretado por Agnes Jaoui (''O Gosto dos Outros''), esta sim, é comédia de costumes respeitável, uma sitcom com cérebro e personagens de carne e osso, embora trancados em si mesmo e com sérias dificuldades de se relacionar mesmo com os mais próximos. Na mesma medida um filme de atores e sustentado muito nos ricos e irônicos diálogos. Um interessante estudo de personagens saídos do microcosmo da pequena burguesia parisiense, centralizado na figura de um escritor excessivamente auto-centrado. O primeiro dos três franceses não decepcionou.
Da Argentina veio o estranho ''La NiÀa Santa'', segundo longa da revelação Lucrecia Martel (a estréia foi o elogiado ''O Pântano'', recém-lançado no Brasil). Adolescentes católicas ensaiando hinos e conversando sobre a Bíblia e médicos otorrinolaringologistas em congresso compartilham o mesmo hotel. Em essência, o filme é a história de uma atração proibida entre uma das garotas e um dos congressistas. Claustrofóbico, ''La NiÀa Santa'' não cumpre a intrigante promessa inicial de dissecar as repressoras convenções sociais e religiosas e navega num mar de perversões sugeridas, jamais amarradas e que não conduzem a lugar nenhum.
Primeiro filme alemão a entrar na competição de Cannes em uma década, ''The Edukators'', de Hans Weingartner, é uma boa surpresa, um conto bem narrado sobre idealismo jovem com intenções de mudar o mundo. Dois rapazes inquietos fazem terrorismo ''branco'', não violento, como forma de protesto: invadem mansões onde os donos não estão, fazem mudanças no mobiliário e deixam mensagens intimadatórias contra a classe rica dominante. Tudo bem até o dia em que uma terceira pessoa, uma garota, modifica aquele procedimento e eles acabam praticando um sequestro.


