A tradicional ''noite de jazz'' costuma ser, sempre, uma das mais concorridas do Festival de Música de Londrina. É provável que, a exemplo de anos anteriores, uma extensa fila de aficionados se forme hoje para assistir aos improvisos da banda RiOrleans. O show começa às 20h30 no Teatro Marista, depois do concerto do Quinteto de Metais Itaratan, previsto para às 18h30 no Cine Teatro Ouro Verde.
RioOrleans é liderado pelo saxofonista norte-americano Ray Moore, um apaixonado pela música brasileira que começou a visitar o país em 1985 e que desde 1997 passa metade do ano no Rio de Janeiro e outra metade em Nova Orleans (EUA) ponte aérea que explica o nome da banda. Segundo os organizadores do Festival, a vinda do artista pode inaugurar um intercâmbio permanente entre Londrina e o berço do jazz.
O grupo foi criado na última temporada depois de algumas jam sessions em casas noturnas cariocas. Moore aglutinou instrumentistas de vasta bagagem como Dario Galante (piano), Pascoal Meirelles (bateria) e Tony Botelho (contrabaixo acústico). Em Londrina, este último será substituído por Jorge Oscar. Todos eles desenvolvem carreiras sólidas seja como músicos de estúdio, de apoio em shows de artistas de renome ou em trabalhos próprios.
O repertório para a apresentação de hoje traz composições como ''Red Top'' de Dexter Gordon; ''The Preacher'' de Horace Silver; e ''The Stumble'' de Little Freddie King. No programa, duas peças são de autoria do músico norte-americano: ''Jóia'' e ''Jongo dos Santos''. Os temas tradicionais do jazz recebem nova roupagem privilegiando arranjos calcados em sonoridades brasileiras. É concepção que rege o trabalho da banda.
''Reinterpretamos standards sobrepondo-lhes ritmos como Bossa Nova, partido alto e jongo'' diz Ray Moore. A proposta, segundo ele, reflete as muitas semelhanças entre as músicas brasileira e norte-americana. ''Sinto um relaxamento na música das Américas'' salienta. ''O espírito e os ritmos são muito parecidos. Tudo é entrelaçado, interligado e oriundo da mesma fonte: a tradição africana. As várias tribos que foram para New Orleans, vieram para o Brasil também. Na música, a síncope é a mesma''.
Apesar do pouco tempo juntos, a banda já registrou suas experiências em CD. O disco, intitulado ''Paralelepípedo'', será lançado hoje. Os músicos entraram no estúdio em setembro do ano passado no Rio de Janeiro. Posteriormente o CD foi mixado, masterizado e prensado nos Estados Unidos tudo de forma independente. ''Gravamos ao vivo numa sessão de 8 horas'' conta o baterista Pascoal Meirelles.
''Queríamos fugir da frieza de estúdio, da coisa premeditada, da procura do som perfeito. O ser humano não é perfeito. A idéia era que a pessoa sentisse a pulsação, a vibração das pessoas tocando. Pode até existir um erro, um som estranho de piano, mas isso é irrelevante. A intenção era manter a tradição de jazz, gravando com espontaneidade e no calor da batalha como se tivesse num palco''.
Meirelles acrescenta que o próprio show de hoje traz uma concepção aberta, típica do gênero, independente do roteiro das músicas. ''Pode acontecer de tudo, porque a improvisação é a mola do jazz'' enfatiza. Moore aproveita o Festival para divulgar outro CD, ''Minha Jóia'', gravado com sua outra banda, a Brasilliance!, formada por seis músicos de Nova Orleans. O grupo é uma das formações que difundem a música brasileira no circuito jazzístico local, onde segundo ele disputam espaço um conjunto de choro e outro dedicado a músicas de carnaval.
O repertório da Brasilliance! tenta escapar dos chavões. ''Procuro fugir dos temas turísticos daquele compositor famoso que todo mundo toca'' sublinha, fazendo referência sem citar o nome a Tom Jobim. Para o disco, Moore preferiu inspirar-se em Hermeto Paschoal, do qual gravou vários temas pinçados de seu livro Calendário do Som. Uma das composições foi feita pelo mestre albino especialmente para a gravação.
''Sou fã de Hermeto'' revela o saxofonista. ''Ele é muito generoso. Às vezes você vai na casa dele, e sai de lá com uma música. Algumas vezes, ele até compõe na hora. Quando falei do disco, ele deu a peça 'Rio Mississipi', na qual imaginou vários músicos vivos e mortos brincando nas águas do Rio Mississipi''.
Principal atração de hoje no Festival, Ray Moore e sua banda RiOrleans serão precedidos de um concerto do Quinteto de Metais Itaratan, de Belo Horizonte (MG). O conjunto iniciou suas atividades em 1997, a partir de um trabalho realizado na classe de Música de Câmara, da Escola de Música da UFMG. Desde então, o grupo vem trabalhando com música brasileira, escrita ou arranjada para esta formação camerística, buscando explorar todas as possibilidades técnicas e sonoras que ela oferece.
Itaratan, o nome, vem do tupi-guarani e significa ''feito de metal'' ou ''pedra que brilha''. É formado por Anor Luciano Júnior (trompete), Renison Oliveira Santos (trompete), Gustavo Garcia Trindade (trompa), Renato Lisboa (trombone) e Eleilton Santos da Cruz (tuba). Seu repertório destaca obras eruditas e populares. Privilegia a pesquisa e execução de peças nacionais, mas não se limita a elas mantendo transcrições de Bach, Beethoven, Mozart, Astor Piazzola e Beatles.

HOJE NO FESTIVAL

Quinteto de Metais Itaratan. Às 18h30, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos: R$ 4,00 (estudantes e idosos pagam meia entrada).
Noite de Jazz com o saxofonista norte-americano Ray Moore e sua banda RiOrleans. Às 20h30, no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 240). Ingressos: R$ 4,00 (estudantes e idosos pagam meia entrada).

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