Foi Chico Science quem difundiu o maracatu nas regiões mais abastadas do país. Desde que ele colocou os tambores para rufar nas composições do grupo Nação Zumbi, na metade dos anos 90, toda uma geração de jovens do sudeste passou a se interessar pelas batidas vigorosas que acompanham essa manifestação afro-brasileira encravada em Pernambuco.
Mas se o pulso rítmico ganhou evidência pop, a tradição centenária resiste em toda a sua autenticidade pelas mãos dos herdeiros para os quais o batuque figura apenas como uma das expressões do folguedo ao lado do figurino, do canto, da dança e da religiosidade. É o que o público poderá conferir hoje às 12 horas, quando a procissão passar pelo Calçadão como uma das atrações do último dia do 32º Festival de Música de Londrina.
Além dessa apresentação, a programação destaca concertos da Orquestra Marista de MPB e da Big Band, ambas formadas por alunos participantes das oficinas e cursos de instrumentos. Os dois conjuntos sobem ao palco do Cine-Teatro Ouro Verde, às 20h30, sob regência de Roberto Gnatalli e Jarbas Cavendish, respectivamente.
O repertório dos concertos reúne as peças ''Meu amigo Tom Jobim'' (Radamés Gnatalli), ''Se acaso você chegasse'' (Lupicínio Rodrigues), ''Quebra Pedra'' (Tom Jobim), ''Corcovado'' (Tom Jobim), ''Brasil Pandeiro'' (Assis Valente) e ''Isto aqui o qué é'' (Ary Barroso), ''Marcando em Cima'' (Edson Rodrigues), ''Caribe'' (Alberto Domingues/Manguera, arranjo de Dimas Sédicias) e ''Maracangalha'' (Dorival Caymmi, com arranjo de Jarbas Cavendish).
As atenções da tarde, porém, estarão todas voltadas para o cortejo popular oriundo do nordeste e herdado dos escravos africanos. O ritual festivo contará com cerca de 30 integrantes do Maracatu Nação Terra Vermelha formado em maio por adolescentes moradores do distrito de Lerroville e 13 componentes do Maracatu Nação Leão Coroado que veio de Olinda (PE) para ministrar uma oficina de percussão e dança no FML.
''Nós, na verdade, vamos apenas acompanhar o pessoal daqui colaborando com o estandarte e uma parte do figurino. A apresentação será deles'' diz Mestre Afonso, da Nação Coroado. Segundo ele, a associação que dirige é a mais antiga entidade de maracatu do país. Em dezembro festejará 140 anos de atividades. ''Durante esse período, ela só parou 1 ou 2 anos por causa da morte de seus fundadores'' conta.
A organização é mantida sem fins lucrativos buscando perpetuar a tradição através da promoção de pesquisas, cursos, documentação e eventos carnavalescos. A vinda ao Festival foi articulada pelo estudante de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Danilo de Sousa, responsável pelo projeto de maracatu desenvolvido em Lerroville com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).
Para Mestre Afonso, o interesse de paranaenses pela cultura popular enraizada em Pernambuco segue uma tendência universal, verificada nos últimos cinco anos. ''O mundo descobriu o maracatu, com a ajuda de Chico Science'' salienta. ''Depois dele, os grupos tradicionais de Recife passaram a ser convidados para fazer apresentações em outras regiões do Brasil. Houve uma expansão até no exterior, onde já existem grupos de maracatu em países como os Estados Unidos, Alemanha e Holanda'' explica, acrescentando que o Leão Coroado fez uma viagem de 58 dias pela Europa na última temporada.
O fenômeno, porém, é visto com desconfiança pelo entrevistado. Para ele, a massificação chegou à classe média alta, o que tem gerado uma descaracterização do legítimo maracatu. ''No carnaval, eles incentivam os campeonatos premiando os grupos mais estilizados. Daí, todo mundo quer ganhar, quer ficar mais bonito e acaba fugindo da raiz. Alguns grupos começam a imitar escolas de samba, colocando alas e instrumentos que não fazem parte do maracatu. A coisa já virou maracasamba''.
Contrário à diluição, ele decidiu vetar a participação do Leão Coroado em concursos desde que assumiu o bastão de Mestre Luís da França, em 1997. ''Espero que o grupo de Londrina não se perca e mantenha a tradição'' alerta. Depois de duas semanas trocando experiências com os visitantes, o grupo local anuncia um novo projeto para o mês de outubro: a vinda de um percussionista (cujo nome ainda não foi definido) para ministrar oficinas em escolas da cidade.

HOJE NO FESTIVAL

Apresentação de Maracatu. Às 12 horas, no Calçadão.
Orquestra Marista de MPB (alunos do Festival) e Big Band (alunos do Festival). Às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos: R$ 4,00 (estudantes e idosos pagam meia entrada).

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