FESTIVAL - Movimentos emancipados
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de outubro de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Uma série de temas polêmicos envolvendo a emancipação da mulher contemporânea está representada no espetáculo ''Vi-Vidas'', que a bailarina e coreógrafa Sônia Motta mostra hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde. É uma das principais atrações do Festival de Dança de Londrina e a primeira montagem produzida fora do Brasil ao longo das quatro edições do evento.
''Vi-Vidas'' estreou no ano passado na Alemanha, onde a artista mora desde 1989. Agora, em turnê de dois meses no Brasil, foi apresentada em São Paulo, Belo Horizonte (MG) e daqui segue para Salvador (BA). A montagem traz ao palco a essência do feminino nas culturas patriarcais através de três arquétipos: a mulher muçulmana, a mulher européia e a mulher brasileira.
Põe em discussão também o tabu da idade para a prática da dança. Tudo abordado sem a mediação da palavra, apenas com a criatividade de gestos e movimentos. ''Tento mostrar que por mais que as mulheres tenham ocupado postos proeminentes no mercado profissional, o equilíbrio entre os sexos ainda não se concretizou. Elas continuam inferiorizadas pelo sistema patriarcal ganhando salários menores, por exemplo'' - diz.
Apesar do tom discursivo, ela adverte: ''Não se trata de um espetáculo feminista, já que procuro até desmistificar a pseudo-liberação contemporânea''. Ao traçar paralelos entre mulheres de diferentes culturas, a coreógrafa lembra que as muçulmanas continuam sendo obrigadas a usar burcas sofrendo sob o tacão da ortodoxia e do fanatismo religioso. Já as européias, viveriam um estresse correspondente às suas conquistas nos planos profissional e comportamental.
As brasileiras, por sua vez, permanecem - segundo Sônia - condenadas ao papel de objeto sexual em imagens comercializadas mundo afora. Hoje, diz ela, as mulheres brasileiras recorrem à plástica preocupando-se apenas com a estética sem perceberem que em vez de agradar a elas mesmas submetem-se, na verdade, às expectativas do universo masculino.
Com o espetáculo, a coreógrafa pretende questionar também a necessidade de ser jovem para o exercício da dança ou de outra manifestação artística. ''É sempre a busca do jovem, do novo. Os bailarinos que chegam aos 30 ou 40 anos deixam os palcos para dar aulas, ficam sem espaço. Estou com 54 anos, quero mostrar cenicamente que um corpo com essa idade ainda é capaz de dançar. Obviamente, não tenho o vigor, a energia ou o virtusiosmo de um jovem. Mas tenho outros recursos de gestual, que ganhei com a maturidade'' - sublinha.
Além do espetáculo, a coreógrafa participa da programação didática do Festival comandando uma oficina de dança contemporânea, que começa hoje e se encerra no sábado. No curso, ela apresenta seu método ''Arte da Presença'', pelo qual foi convidada a trabalhar na Alemanha. ''É um treinamento para bailarino, voltado para trabalhar sua postura usando elementos quase terapêuticos. É uma técnica única, que busca o resgate do contato com o corpo, descompromissado de regras'' - explica.
Sônia descreve o método como um ''jeito brasileiro de trabalhar o corpo, sem cair no folclore''. Foi a característica que, talvez, tenha despertado a atenção dos alemães que há 17 anos a convidaram para difundir a técnica na terra de Goethe. Lá, a coreógrafa dirige o departamento de dança contemporânea do Tanzprojekte Köln e trabalha com diversas companhias e escolas de formação profissional.
É a segunda vez que participa do Festival de Dança de Londrina. Na primeira edição, em 2003, ministrou uma oficina para profissionais da área. Agora, o público poderá vê-la sob os holofotes.
Serviço:
- Hoje: Espetáculo de dança contemporânea ''Vi-Vidas'', com Sônia Motta. Horário: 20h30. Local: Teatro Ouro Verde (R. Maranhão, 85). Ingressos: R$ 5,00 e R$ 2,50 (para estudantes e aposentados).


