FESTIVAL - Metais para levantar a platéia
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2003
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Bocato, um dos nomes mais comentados na escalação do ''Londrina Jazz Festival'', vem acompanhado de sua banda Jam Suburbana. Não vai mostrar nada de seu trabalho-solo. Chega à cidade como líder, arranjador e trombonista do coletivo paulistano.
Instrumentista de prestígio, Bocato despontou no final dos anos 70 acompanhando Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Depois, participou das gravações do show/disco ''Saudades do Brasil'', de Elis Regina. Mais tarde, intensificou a carreira de músico de apoio e de estúdio colaborando para artistas como Roberto Carlos, Rita Lee, Ney Matogrosso, Gal Costa e Zeca Baleiro.
Paralelamente, começou a desenvolver composições próprias lançando discos por gravadoras independentes. Viajando com regularidade para o exterior, gravou os dois últimos CDs na Suiça: ''Samba de Zambas'' e ''Acid Samba''. Nesta entrevista à Folha Dois, ele fala de seus trabalhos e solta a língua para criticar Caetano Veloso e Gilberto Gil.
O que você vai tocar em Londrina?
O repertório é uma mistura de black music universal com black music brasileira. Vamos tocar soul, funk, jazz, James Brown, Toni Tornado, muita coisa dos anos 60, tudo com pitadas de música brasileira na percussão e nos arranjos. O show vai ter muita improvisação. Convidei o Tomate, aquele que toca no programa no Jô. Ele vai surpreender muita gente, é um jazzista incrível, seus improvisos costumam ser memoráveis.
Você não vai tocar nada de seu trabalho próprio?
Não. Vou ao Festival como integrante da Jam Suburbana, como arranjador e trombonista da banda. A banda tem músicos sensacionais. Tocar com eles é muito gratificante. Uma das funções que mais me agrada na música, é fazer dançar, além de improvisar.
O seu último disco chama-se ''Acid Samba''. O que vem a ser isso?
Esse disco é o primeiro de uma trilogia, o segundo está pronto e acabei de gravar o terceiro. Devem sair juntos numa caixinha. Acid samba é uma síntese da música brasileira com as músicas americana e européia. É um trabalho inspirado nas levadas do samba, nos ritmos brasileiros, e nas influências de fora.
Como é a agenda de shows da Jam Suburbana? Vocês têm tocado muito fora de São Paulo?
O show em Londrina vai ser o primeiro fora de São Paulo. Formamos a banda há três anos e meio e nos estabelecemos na cidade. Tocamos às segundas-feiras, como atração fixa, na casa noturna Urbano. Nesta semana, conseguimos atrair 1.500 pessoas. É um negócio forte. Tocamos também no Sesc e na periferia através de um projeto da Prefeitura.
A que você atribui essa redescoberta da black music e o entusiasmo que esse estilo provoca entre as novas gerações?
Os blacks estão na origem do jazz, do rock, do blues, do soul, do funk. O que aconteceu foi que a música brasileira ficou fechada nas últimas décadas. Caetano, Gil, esse pessoal, pegou a música popular brasileira nos anos 70 e está aí até hoje. Eles acabaram com a melodia, acabaram com a harmonia. E há anos vêm fazendo um som desprezível. Passaram a compor roquezinhos e reggaezinhos de beira de piscina. E o fato de elegerem os Tribalistas como a continuação da Tropicália, explica bem o ponto a que chegamos. Com eles, a música deixou de ser competitiva lá fora, como o reggae jamaicano, o Buenas Vista Social Club de Cuba e a música africana que se comunica com o mundo. Está na hora de quebrar com essa hegemonia e todo artista que vier ligado a esses caras não vai avançar nada. Felizmente, os blacks estão dando o ar da graça outra vez fornecendo a bola para a gente chutar. É a negritude, de novo, que vem nos servir para fazer a música do futuro. Porque o futuro da música está no Brasil, a metrópole é aqui.


