É das mais singulares a trajetória de Paulo Freire, que traz seu baú de causos ao 24º Festival de Música de Londrina. Violeiro de primeira linha, ele faz parte da geração responsável por revitalizar a tradição caipira do instrumento projetando-o para as salas de concerto.
Seu show é hoje, às 20h30, no Cine Teatro Ouro Verde. ''Vou contar histórias ligadas ao universo da viola intercalando-as com músicas que também trazem histórias nas letras, além de cantar músicas de domínio público e de duplas conhecidas como Alvarenga & Ranchinho e Zé Mulato & Cassiano' anuncia.
No palco, terá a companhia do violonista londrinense André Siqueira. Além da apresentação, ele ministra uma oficina de tradição oral no colégio Hugo Simas, QG dos cursos do Festival. Filho do escritor Roberto Freire, o violeiro vai aproveitar a passagem pela cidade para divulgar os três CDs que lançou no ano passado: ''Brincadeira de Viola'', ''Esbrangente'' e ''Paulo Freire Trio Vai Ouvindo''.
''O primeiro é dedicado ao mundo da criança. Traz clássicas do universo infantil como 'Escravos de Jó' e 'Terezinha' e cantigas de ninar como 'Essa Menina' e ''Boi da Cara Preta''. Tudo com arranjos para viola'' conta ele. O disco foi feito em família, tocando para os filhos Laura e Augusto, que soltam a voz na faixa ''Alecrim''. A esposa, Ana Salvagni, também participa como cantora.
A ficha técnica do CD destaca participação de músicos da Orquestra Popular de Câmara (da qual ele faz parte), como Mané Silveira, Zezinho Pitoco, Toninho Ferragutti e Ronen Altman. O segundo disco, ''Esbrangente'', registra a parceria entre Freire e os também violeiros Roberto Corrêa e Badi Medeiros. É fruto de uma turnê que percorreu o País em 2002, sob patrocínio do Sesc Brasil.
Corrêa, além de compositor e músico respeitável, desenvolve um trabalho importante como pesquisador de música caipira. Badia, por sua vez, é guia de Folia de Reis e acaba de gravar um CD com previsão de lançamento para setembro. No palco, os três animaram platéias de 36 cidades em 9 estados brasileiros.
''A gravação do disco foi motivada pela alegria que brotava das pessoas ao final dos espetáculos'' salienta''. ''Ficamos impressionados com a receptividade do público em lugares como o interior de Santa Catarina, a capital do Acre e o norte do Amapá. Ao longo da excursão, percebemos que a música de viola é conhecida nas regiões centrais do País, mas desperta grande interesse nas demais localidades''.
O terceiro CD, por fim, abre o sotaque caboclo da viola às influências da música instrumental universal. Em ''Vai Ouvindo'', que também batiza o selo fonográfico do músico, Paulo Freire é acompanhado pelo baixista Tuco Freire e pelo percussionista Adriano Busko. O repertório reúne causos, lundus, jazz, uma folia de Bom Jesus da Lapa e até um rap de viola. A surpresa é uma versão de ''Round Midnight'', de Thelonius Monk, ponteado na viola de cocho e no baixo acústico.
''Em algumas faixas, a viola vem ligada a pedais de efeito, criando novas possibilidades sonoras para o instrumento'' revela. Os três CDs foram gravados pelo próprio selo do artista (''Esbrangente'' foi co-produzido pelo Viola Corrêa, selo de Roberto Corrêa). ''Só temos a ganhar lançando trabalhos por conta própria'' afirma ele.
''Não vale mais a pena ficar nas mãos da indústria. O meu último CD por uma gravadora foi o 'São Gonçalo', que está há três anos e meio fora do mercado. Ele esgotou a primeira tiragem e não foi reeditado''. Além dos shows e da divulgação dos CDs, Freire anuncia que planeja escrever um livro sobre as histórias de violeiros.
Embora se apresente como paulista, ele teve seu percurso como músico vivido no interior de Minas Gerais. Nascido em Campinas, aprendeu a tocar viola com o mestre Manoel de Oliveira, morador de Urucuia. É justamente sua incursão pelo sertão mineiro que desperta curiosidade em sua trajetória, revelando-se uma aventura existencial com poucos similares no panorama da música brasileira.
Afinal, que outro artista ousou largar a faculdade após a leitura de um livro e se embrenhar no ambiente agreste descrito em suas páginas com o propósito de encontrar a musicalidade escondida na região? O livro era ''Grande Sertão: Veredas'', de Guimarães Rosa, que inspirou Paulo Freire a trocar as comodidades da grande cidade pelo cotidiano da roça, em 1978.
Durante dois anos, ele viveu entre lugares sem energia elétrica e São Paulo. Lá, aprendeu a tocar viola e conviveu com histórias de violeiros. É esse universo que ele mostra hoje no palco do Cine Teatro Ouro Verde, apresentando causos, como pactos com o diabo, a peleja do sapo com o veado e a criação de sacis no interior paulista.


Serviço:
- Show de Paulo Freire. Hoje, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos: R$ 6,00 (estudantes pagam meia-entrada). Ponto de venda: no local, a partir de 15 horas.

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