Só os próximos dias dirão se o terror internacional vai seguir prevalecendo nas manchetes dos principais diários europeus que circulam aqui em Veneza. A escalada da violência, agora também por conta dos chechenos, está colocando em segundo plano os primeiros dias da 61 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica, nome pomposo que os italianos arranjaram para um festival que nasceu aristocrata nos anos 1930 e que vem se abrindo há alguns anos. Nas últimas horas desembarcaram John Travolta, Meryl Streep e Denzel Washington, todos com filmes fora de competição naquela generosa fatia que a organização destinou às majors hollywoodianas. Daqui a pouco quem chega é Tom Cruise, e em seguida Nicole Kidman. Com esses pesos pesados da confraria estelar o mapa da ocupação ianque vai estar bem mais abrangente. O Iraque que se cuide.
Os filmes com essas personalidades foram os que mais atenção atraíram da grande mídia que faz a cobertura do festival - inferior em número apenas à recente olimpíada. Denzel está em duas produções, ''Man on Fire'', de Tony Scott, e ''The Manchurian Candidate'', de Jonathan Demme. São dois thrillers que propõem o mix preferencial de ação e reflexão. No filme de Scott (o irmão mais agitado do diretor Ridley ''Blade Runner'' Scott), Denzel é o ex-agente da CIA que no momento vive semi-alcoolizado no México e trabalha como guarda-costas da filha de um industrial. A menina é raptada, e o segurança vira bicho. O roteiro tem assinatura de Brian Hegeland, que brilhou em ''Mistic River''. O filme é bom de ver porque consegue agregar ao circo eletrizante um atraente refinamento formal. Mas nada que garanta a rotulação de filme de arte ou lugar cativo na memória.
Já ''The Manchurian Candidate'' é mais incisivo na captura do clima de paranóia contemporânea, revisitando o clássico homônimo de 1962. Meryl Streep, em fashion de pura perfídia, é a mãe e senadora que vampiriza o filho herói (?) na Guerra do Golfo e agora candidato à vice-presidência, em nome de corporação globalizada. Demme carrega a mão no lado político e mantém o filme em alta voltagem sem precisar de maiores doses de adrenalina.
A competição propriamente dita começou bem, com França e Grécia inaugurando o tapete vermelho. É indiscutível a habilidade e a versatilidade do garoto-prodígio François Ozon, 37 anos e queridinho da crítica festivaleira depois de ''8 Mulheres'' e ''A Piscina''. Ele trouxe ''5 x 2'' (''Cinco Vezes Dois''), a crônica agridoce de uma relação amorosa. A narrativa entrega a montagem ao inverso: começa na assinatura do divórcio e percorre cinco momentos significativos na vida do casal até o primeiro encontro. Na coletiva, François Ozon explicou: ''Quando uma história termina, se percorre mentalmente a relação à procura dos erros sempre a partir do fim. Mas os mais recentes não são necessariamente os mais significativos. Quis que o público visse todos os sentimentos que os protagonistas provaram durante a ligação: indiferença, desgosto, ciúme, intimidade, atração''. Na forma e no fundo, francês até a medula, apesar da trilha de grandes sucessos italianos dos anos 1960. E universal, por adoção.
Já a Grécia olímpica chegou à tela do festival despida de qualquer glamour. Nenhuma semelhança com o que se viu nas últimas semanas, edulcorado pelo encanto que tomou conta dos enviados especiais do mundo inteiro. Pelo contrário. O diretor Nikos Panayotopoulos empreendeu uma descida sem volta ao inferno dos deserdados que habitam as ruas sujas e escuras de Atenas e realizou um filme em estado bruto. ''Um filme pobre sobre gente pobre'', disse ele secamente durante a coletiva. Nada melhor para definir ''Delivery'', em que nunca se vê o lado opulento da Grécia.
É a história de um rapaz marginal e sem nome que chega à cidade não se sabe de onde. Ele se move entre marginais. Imigrantes ilegais, exilados, viciados. Marginais, e muitos também delinquentes. Entregador de pizzas, é como uma testemunha silenciosa. Mantém fugaz relação com uma colega de trabalho, outra desvalida como ele. Convive com sem-tetos e drogados. Assim como o resto, também não tem qualquer saída. Ou melhor, há uma única. ''Delivery'' não é apenas entrega de pizzas. Pode significar também parto, ou libertação.

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