Veneza O grande circo veneziano do cinema começa a ser desmontado. Nas próximas horas, os últimos a deixar o picadeiro ou a arena, na visão de alguns cristãos novos prontos para o sacrifício e outros nem tanto serão os leões, transformados aqui em reluzentes objetos do desejo de fama, gloria e fortuna esta última em geral de difícil obtenção, dada a rarefeita familiaridade dos produtos em exposição competitiva com as regras vigentes e sempre rígidas do box office. Esta 60 Mostra Internazionale d'Arte Cinematográfica chega ao fim com saldo estimulante e com bem menos lamentações do que aquelas que, há pouco mais de três meses, embalaram o Festival de Cannes em melancólicos cantos de lamentação.
Encerrada a mostra competitiva, as impressões gerais se mantêm, apontando na direção da Itália de Bellocchio e ''Buongiorno Notte'', e da Rússia de Zvyagintsev e ''O Retorno'', com especulações mais ou menos consistentes ao redor de ''Zatoichi'' de Kitano, de ''Rosenstrasse'' de von Trotta, de ''Um Filme Falado'', de Manoel de Oliveira e de ''Goodbye Dragon Inn'', de Tsai Ming Liang. Mas como ao júri tudo é permitido e, como via de regra, tudo o que é permitido foge dos domínios da lógica e até do bom senso, o anuncio de algumas surpresas não está descartado. No júri estão, além do diretor e presidente Mario Monicelli, estão os atores Stefano Accorsi, Assumpta Serna e Ann Hui, o roteirista Monty Montgomery, o fotógrafo Michael Bauhaus e o diretor Pierre Jolivet.
Para ganhar a Coppa Volpi de melhor e atriz as ofertas são múltiplas e generosas. É um ano fértil em interpretações marcantes, algumas inesquecíveis. Valem de novo as reservas quanto à possibilidade de os jurados meterem os pés pelas mãos e repetirem alguns absurdos, nos últimos anos cometidos aqui mesmo em Veneza. Entre as mulheres, a sinalização mais acentuada é dirigida a Maya Sansa (''Buongiorno Notte''), Naomi Watts( em ''21 Gramas''), Najat Bessalem (''Raja''), Moon Sori (''A Mulher do Bom Advogado''), Isabele Carre (''Les Sentimens'') e Katjia Riemann (''Rosenstrasse''). Entre os atores, Sean Penn e Benicio Del Toro (''21 Gramas''), Takeshi Kitano (''Zatoichi'') Jean Pierre Bacri (''Les Sentiments''), Vladimir Garrin (''O Retorno''), Krzystof Majchrzak (''Pornografia'').
O último filme da competição principal foi ''21 Gramas'', a esperada volta do mexicano Alejandro González IÀárritu ao longa, depois da festejada estréia com ''Amores Perros'' e do episódio incluído no filme coral ''11'09'01'' sobre o atentado terrorista em Nova York e lançado ano passado no Festival de Veneza. Particularmente duro para qualquer cineasta, o teste do segundo filme. O ideal para muitos seria passar direto do primeiro bem-sucedido ao terceiro, sem escalas intermediárias, sem cobranças, sem o peso da tal segunda obra que deve confirmar, pressionar e se possível superar as virtudes da estréia.
Mas como isto é materialmente impossível, aqui está ''21 Gramas'', o segundo filme de IÀárritu, que não repete todo o repertório de virtudes de ''Amores Perros''. Ou melhor, repete mas não convence, e justamente porque repete a mesma construção dramatúrgica, agora assumindo incomoda (perigosa?) dimensão de maneirismo, de fórmula que parece buscar aquela mesma afeição da crítica que o consagrou a partir de Cannes-2000.
Três personagens, Paul (Sean Penn), Jack (Benicio Del Toro) e Cristina (Naomi Wats), envolvidos num incidente violento e imprevisto cujas consequências mudam suas vidas e seus destinos. E que vidas e que destinos complicados, estes prescritos pelo roteiro quebra-cabeças de Guillermo Arriaga Jordan, o autor de ''Amores Perros''.
''21 Gramas'' o título se refere ao peso do último suspiro de alguém que acaba de morrer, em simbólica alusão ao peso da alma é uma ríspida, penosa meditação sobre alguns aspectos que acompanham diariamente nossa vida complicada: perdas, entrega, amores, culpa, coincidências, vingança, obrigações, fé, esperança e redenção. Os personagens de Arriaga Jordán e IÀárritu, multidimensionais e contraditórios, aparecem sobrecarregados com tudo isso, nuançados entre o bem e mal, entre a fragilidade e a força.
Se de fato o estilo é o homem, então IÀárritu é um dos mais complexos seres humanos da história do cinema e, mais impressionante, com apenas dois longas curriculares. A narrativa é construída em blocos que avançam ou retrocedem no tempo, numa calculada mescla entre flashback e flashforward. O tempo real é impreciso, e às vezes a impressão é de que ele não existe, e que tudo está acontecendo simultaneamente, ontem e hoje, ali e aqui. Forma e fundo parecem caminhar sempre juntos, porque o mergulho de ''21 Gramas'' na condição humana passa obrigatoriamente por um cerebral corte estetizante que ora atenua, ora incrementa o processo da dor e da tragédia. É como se um tratamento formal a frio estivesse sempre a serviço de uma trama escaldante. O choque térmico é que são elas.
Definitivamente, festival de cinema não é o melhor lugar para se ver filmes como devem ser vistos, tantos e de feições tão complexas, depois de horas mal dormidas e mal comidas. Embora, em qualquer circunstância, a primeira impressão é sempre a que fica, no caso de ''21 Gramas'' uma revisão cuidadosa será particularmente necessária, até imperiosa.

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