A morte anunciada já há muitas semanas e o obviamente o extenso necrológio dedicado ao ilustre filho da terra, Luciano Pavarotti (que teve breve passagem por Hollywood em 1982 no filme ''Yes Giorgio''), remeteram ontem o noticiário sobre o 64º Festival de Veneza a segundo plano nos principais diários da Europa. Mas hoje, encerramento e jornada de premiação da mostra, as chamadas de capa e o espaço na mídia eletrônica voltam a elevar o termômetro da mostra e devem privilegiar as habituais especulações sobre quem ganha o quê.
É sempre exercício de retórica relativamente estéril apontar eventuais vencedores, principalmente numa seleção em geral de bom nível - em que pesem alguns incompreensíveis deslizes como o filme-surpresa da China e ''Caos'', o inqualificável dramalhão telenovelesco egípcio, último concorrente visto ontem e de imediato repudiado sem meio-termo. O que parece claro a esta altura é que o júri somente de cineastas, Zhang Yimou na presidência, deve praticar justiça salomônica. De qualquer maneira não vai ser fácil.
Sim, porque além da iluminada e humanista crônica familiar franco-árabe ''La Graine et La Mullet'' - minha eleição pessoal -, há que levar em consideração os americanos ''Redacted'', ''In The Valley of Elah'', ''I'Not There'', o multinacional ''Nightwatching'' e a novidade russa ''12'', que à penúltima hora entrou forte para conquistar simpatia e preferência de boa parte da imprensa.
A partir da idéia do argumento de ''Doze Homens e Uma Sentença'', clássico dirigido em 1957 por Sidney Lumet (e refeito para a TV em 1997 por William Friedkin), o russo Nikita Mikhalkov não fez propriamente um remake. Mas assim mesmo realizou um belo filme mantendo a idéia de enclausurar uma dúzia de jurados, aqui decidindo o destino de um jovem checheno acusado de matar o padrasto, oficial do exército russo.
Logo de saída, onze deles não têm duvidas de que devem condenar o réu, mas o décimo-segundo levanta uma pequena dúvida, forçando o diálogo. Felizmente, esta decisão que vai se prolongar por 155 minutos é pretexto para um desfile de doze interpretações de gala, doze solos e ao mesmo tempo um estupendo ensemble, atores do primeiro time do teatro russo às voltas com texto de alto teor dramático. O talento em cena chega a ser intimidante em muitos momentos intimidante.
Em ''12'', Mikhalkov, Leão de Ouro em 1991 com ''Urga'' e Oscar-94 com ''O Sol Enganador'', faz pleno uso de ação, tempo e espaço, o tripé aristotélico que embasa a tragédia. A investigação que os jurados empreendem, enclausurados na quadra de esportes de uma escola, não se atém ao crime em si. Aos poucos, a trama se transforma em desconfortável divã terapêutico, e aqueles julgadores se abrem com suas tragédias pessoais.
É um filme que vasculha os escaninhos da alma e que fala a um só tempo de política, de guerra, de sentimentos, da força da lei, de moral, ética, de pena e castigo, de compaixão. Uma compaixão que Mikhalkov, citando Dostoievsky na entusiasmada coletiva, resumiu sem apelação: ''Amar a todos é sempre muito fácil. Difícil é escolher apenas um''. Pena mesmo que o festival trouxe a Veneza apenas um dos atores deste afinadíssimo conjunto. Um prêmio coletivo de interpretação não cairia nada mau, pelo contrário.
* O jornalista viajou a convite da organização do Festival de Veneza

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