FESTIVAL - Leão de Ouro pode ficar na Itália
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quinta-feira, 04 de setembro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> De Veneza<br> Especial para a Folha2 
Já na reta final, o 60º Festival de Veneza assiste com prazer a chegada de outros dois concorrentes de peso na disputa do Leão de Ouro para melhor filme na principal mostra competitiva, ''Venezia 60'': o italiano ''Buongiorno, Notte'', de Marco Bellocchio, e o russo ''O Retorno'' (Vozvrascenje), de Andrej Zvyagintsev. Muito aplaudidos, tanto na sessão para a crítica quanto na oficial, para o público, são dois excepcionais momentos de cinema autoral. Faltando apenas conhecer o americano ''21 Gramas'', dirigido pelo mexicano Alejandro González IÀárritu, de ''Amores Perros'', o júri, presidido por Mario Monicelli, deverá se debruçar sobre estes dois candidatos de última hora, perfilados com ''Um Filme Falado'', de Manoel de Oliveira, ''Goodbye, Dragon Inn'', de Tsai Ming-Liang, e ''Zatoichi'', de Takeshi Kitano. Correndo por fora, na condição de semi-azarão, ''Rosentrasse'', de Margarethe von Trotta.
Um longo e caloroso aplauso saudou a entrada de Bellocchio, atores e produtores de ''Buongiorno, Notte'' na sala de imprensa para uma coletiva tão concorrida quanto a de Clooney e Zeta-Jones. O filme é o terceiro momento de referência política a surgir na mostra veneziana, depois de ''Segredos de Estado'' e ''I Sognatori''. Aqui a matéria-prima é o sequestro e assassinato do presidente democrata-cristão Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas, em 1978, episódio que traumatizou a opinião pública italiana e mundial e que, segundo Bernardo Bertolucci, marca o início do fim da utopia revolucionária sonhada a partir de 1968.
Bellocchio, que retomou o bom caminho com seu trabalho anterior (''L'Ora de la Religione''), depois de alguns equívocos nos anos 1990, realizou um filme em cima da realidade dos fatos inspirado no livro ''O Prisioneiro'', de Anna Laura Braghetti, nas cartas de Moro à familiares e amigos, em documentos da época mas também da fantasia de uma terrorista que quer salvar a vida do prisioneiro. O sonho da brigadista Chiara, personagem inventado pelo diretor, percorre a narrativa asfixiada por uma contradição essencial: de um lado, o fascínio pela utopia da luta armada, de outro a piedade por um ser humano confinado ao cativeiro e kafkianamente processado por um tribunal proletário. A dupla propulsão que anima ''Buongiorno, Notte'' o título foi tirado de um poema de Emily Dickinson, ''Good Morning, Midnight'' é justamente o seu lado documental, com a recorrência a um rico manancial de imagens televisivas daquele momento, e o insistente pesadelo privado da terrorista inventada por Bellocchio. Inventada, mas verossímil porque Chiara é também um ser humano, e portanto contraditório: a serviço de uma causa que vai se provar insana mas com a vida e os anseios de uma garota comum, que trabalha e ama.
''Buongiorno Notte'' recebeu, sem restrições, a aprovação da família Moro em carta assinada pelo filho Giovanni e lida durante a entevista coletiva. A certa altura o documento afirma: ''Penso que quem assistir ao filme poderá avaliar o sentido do drama de um homem colocado frente a um destino tão trágico quanto insensato e desnecessário''. O filme, desde já marcado para seguir carreira triunfal onde for exibido, deve ser visto como a história da falência de uma geração, de suas extremadas, violentas escolhas.
O nome do russo é complicadíssimo, quase impronunciável: Andrej Zvyagintsev, mas seu belo filme ''O Retorno'', primeira obra de um diretor selecionada para a competição, será sempre fácil de recordar. Numa desolada e gélida região do norte da Rússia, um jovem pai retorna à casa sem aviso depois de uma longa ausência. No dia seguinte sai em viagem com os filhos adolescentes que mal o conhecem, Ivã e Andrei. É uma longa peregrinação por terra e mar até uma ilha remota. Como os dois rapazes, o espectador nada mais sabe sobre este homem, carregado desde o início de simbologias e referências metafóricas, míticas, inclusive bíblicas. Enquanto os irmãos, muito diferentes entre si, disputam o afeto do pai de quem sempre sentiram a falta, em torno deste homem com frequência brusco e às vezes até violento se cria um enigma que não se resolverá jamais um terrorista? um mafioso? um fugitivo?
Em um cenário sempre mais selvagem, os dois menores afinal chegam à maturidade, ''libertando-se'' dessa figura opressora embora necessária. O filme, mesmo não resolvido dentro dos padrões da lógica cartesiana, é mágico e com maravilhosos tempos de narrativa carregados de pressão psicológica. Cinéfilo torrencial, Zvyagintsev é um repositório de influências, algumas mais, outras menos visíveis. ''O Retorno'' é uma forte possibilidade de premiação.
O jornalista Carlos Eduardo Lourenço Jorge viajou a convite da organização do Festival de Veneza


