Muito mais do que um fim de festa quente pela disputa acirrada e empolgante dos concorrentes, a noite de hoje no Palácio dos Festivais promete muito mais suor que lágrimas. Por causa do calor que não dá tréguas (pelo menos até ontem), a previsão para o momento da entrega dos Kikitos aos vencedores é de sufoco literal. Embora esvaziada em relação a outras edições, a expectativa mais óbvia é de que, na melhor das hipóteses, pelo menos os menos ruins saiam daqui premiados. Os últimos concorrentes foram vistos ontem à noite. E se forem confirmadas certas inconfidências vazadas de quem viu ainda na seleção o longa brasileiro ''Vida de Menina'' e o uruguaio ''Whisky'' estariam entre os favoritos. Mas quem vai decidir isto é o júri de longas, onde estão os diretores Betse de Paula, Djalma Limongi e David Mathies, o cenógrafo Daniel Marques, a diretora de teatro Márcia do Canto, a atriz Maria Lucia Dahl e o crítico Rubens Ewald Filho.
Enquanto isso, de quinta-feira para cá ficou mais intensa a circulação daquelas celebridades com maior tempo de exposição na tevê, gente que na prática não tem muito o que fazer por aqui a não ser acelerar o corre-corre da tietagem e preencher a agenda de publicações mundanas. Mas Cannes e Veneza utilizam a mesma tática, em nome do brilho externo, do glamour para exportação. Duas últimas homenagens prestadas pelo festival, desta vez póstumas: a Geraldo Del Rey, ator que morreu em 1993 e que fez história sob a direção de Anselmo Duarte (''O Pagador de Promessas'') e Glauber Rocha (''Deus e o Diabo na Terrra do Sol''); e ao diretor de fotografia Helio Silva, morto em junho e um dos nomes mais importantes na construção do movimento do Cinema Novo.
Subiu significativamente o índice de qualidade dos curtas e longas brasileiros o que nem de longe poderia sugerir obras-primas. O responsável foi ''Filhas do Vento'', estréia do diretor Joel Zito Araújo. É um filme corajoso por sua proposta de cunho social e político, um melodrama forte e bem realizado sobre encontros, desencontros e reencontros familiares. Como pano de frente, o universo feminino e o preconceito racial. O que faz a diferença é um elenco de altíssimo nível composto apenas por atores negros de reconhecido talento como Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Maria Ceiça, Lea Garcia e Thais Araújo o único branco no contexto é Jonas Bloch.
Há sempre riscos quando se fala de um trabalho que aborde ''o papel do negro'' ou ''o papel da mulher'' em determinado contexto social que chega ao cinema. O filme trata dos dois, mas aqui o risco é intencional, há uma esperta premeditação que dá resultados. O diretor Joel Araújo troca os tradicionais papéis estereotipados habitualmente interpretados por atores negros nas telenovelas brasileiras, dando a eles novas configurações. E paradoxalmente utiliza um repertório da dramatugia de telenovela para atingir grandes platéias. Não sai de Gramado sem prêmios, com certeza.
Quem também entrou na disputa pelos Kikitos no segmento latino foi o longa argentino ''Vereda Tropical'', de Javier Torre, melancólica reconstituição, em bases ficcionais, do exílio do escritor Manuel Puig no Brasil durante os anos 1980 até sua ida para o México, onde morreu. Não é páreo para o cubano ''Suite Habana'' e é inferior a ''Um Amor de Borges'', a outra cinebiografia literária assinada pelo mesmo Torre e melhor filme latino em Gramado-2001. ''Vereda Tropical'', captado em vídeo de alta definição, é sensível ao descrever a permanência no Rio do autor de ''O Beijo da Mulher Aranha'', vitimado na Argentina pelos círculos intelectuais intolerantes diante de sua condição homossexual.

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