FESTIVAL - Generosos instrumentistas
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terça-feira, 06 de julho de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
''Um concerto é como uma refeição. Tem uma entrada, o prato principal e a sobremesa''. A definição é do flautista paulista Antonio Carlos Carrasqueira, que se apresenta hoje ao lado da irmã e pianista Maria José no 24º Festival de Música de Londrina.
O concerto começa às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde, seguido de um show com professores da Oficina de Choro. No palco, eles interpretam peças de P. Gaubert, B. Martinu, Pixinguinha e de própria lavra. Com prestígio no Brasil e no exterior, o Duo Carrasqueira já gravou discos próprios, além de álbuns individuais como solistas e cameristas ao lado de outros músicos.
Filhos de pai músico, João Dias Carrasqueira, alimentaram-se de melodia, harmonia e ritmo desde pequenos. ''Mas nada foi por obrigação'' diz Maria. ''Nossa iniciação ocorreu de forma natural, lúdica e espontânea. Passamos por vários instrumentos até chegar ao piano, à flauta e à decisão de encarar a música como profissão. Depois, seguimos carreiras distintas sem nunca deixar o duo''.
Ambos tornaram-se concertistas de primeiro time. Toninho, como é mais conhecido, já recebeu a Medalha de Ouro do Conservatoire de Versailles, a ''Licence de Concert'', láurea máxima da École Normale de Musique de Paris. Faturou também o ''Prêmio Especial do Júri'' no Concurso Internacional G.B.Viotti, em Vercelli, na Itália.
Já gravou os CDs ''Antonio Carlos e Maria José Carrasqueira In Concert'', ''A. Vivaldi - As Quatro Estações'', ''El Canto de Guirahú - Concerto Latino-Americano'', ''Toninho Carrasqueira toca Pixinguinha'' e ''Pattápio Silva e Flautas Fantásticas''. Todos esses trabalhos contaram com participação da pianista-irmã e parceira.
Maria José, por sua vez, já foi laureada na categoria ''Melhor Recital'' pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e na categoria ''Melhor Solista Instrumental'' pelo Prêmio Carlos Gomes. ''Ela é uma camerista extraordinária'' afirma o irmão. ''Mais do que sua atuação como solista, aprecio suas qualidades como camerista, porque além de talento a função exige muita sensibilidade para tocar com outras pessoas''.
Maria está finalizando as gravações de seu primeiro CD-solo, dedicado às composições de Ernesto Nazareth. A previsão é que chegue às lojas em outubro. Atuante como produtora, ela foi uma das pioneiras na gravação de obras clássicas em CDs feitos inteiramente no Brasil. Em 1990, com amparo do selo Paulinas-COMEP, criou uma série destinada a valorizar a música instrumental brasileira e latino-americana.
Graças à iniciativa, foram lançados CDs de grupos como o Quarteto de Brasília, a Camerata Fukuda e o Quinteto de Metais da Paraíba. Pelo projeto, foi contemplada com o Prêmio Sharp, em 1996. ''A idéia era criar uma série permanente e regular de lançamentos. A partir dela, outras gravadoras começaram a fazer o mesmo. Elas perceberam que a música erudita tem uma venda contínua, que ela não não é descartável, que não tem uma saída imediata como outros gêneros'' explica.
Militante de causa nobre, Maria atua também na área de recuperação e edição de partituras. A capa de um dos livros que publicou foi visto por milhões de telespectadores na novela ''Celebridade'', da Rede Globo. ''Era um álbum com o resgate de 70 choros de Pixinguinha'' conta, divertida. Toninho lamenta o descaso com que as obras dos grandes compositores são tratadas no Brasil.
''O País tem o problema sério de não conhecer sua própria história'' nota, indigado. ''Temos uma tradição musical riquíssima que é desconhecida porque não aparece na televisão e no rádio. Antes, as emissoras tinham diretores artísticos. Hoje, eles foram substituídos pelos diretores comerciais''. Convidados frequentes de Festivais, o duo confessa adorar as atividades desenvolvidas enquanto professores.
''Temos uma grande responsabilidade e, ao mesmo tempo, sentimos muita alegria ao participar desse tipo de evento. É sempre uma satisfação grande rever os amigos e trocar ensinamentos e aprendizados'' diz o flautista. Sobre o programa do concerto de hoje, salientam que procuraram fornecer um panorama aberto da música.
''A música é um alimento etéreo, espiritual, uma máquina de viajar no tempo. Cada compositor nos leva para um ponto de nosso interior'' diz Toninho. Ele explica que a peça ''Picaflores de Machu Picchu'', de sua autoria, utiliza recursos da música contemporânea. ''Tem um lado performático, tem o piano tocando dentro das cordas, tem o improviso. Eu a compus motivado por uma reflexão a respeito da devastação da natureza'' sublinha.
Após a apresentação do duo, uma roda de choro reúne no palco os músicos Luiz Otávio Braga, Josimar Carneiro (violão de 7 cordas), Joel Nascimento (bandolim), Jayme Vignoli (cavaquinho) e André Vercelino (percussão) todos professores do Festival.
Serviço:
- Concerto do Duo Carrasqueira, seguido de uma roda de choro com professores do Festival. Hoje, às 20h30, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85). Ingressos: R$ 6,00 (estudantes pagam meia-entrada). Ponto de venda: no local, a partir de 15 horas.


