FESTIVAL - 'Gaijin' tem boa acolhida em Gramado
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quinta-feira, 18 de agosto de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Quando Tizuka e equipe subiram ao palco do Palácio dos Festivais, anteontem à noite, estava se repetindo, 25 anos depois, o mesmo rito de aproximação do primeiro ''Gaijin Caminhos da Liberdade''. Naquela ocasião, a diretora então estreante apareceu rápida e timidamente a vitória e a consagração do filme como melhor de 1980 seria uma outra conversa, seria outro o discurso de agradecimento. Desta vez, ela se permitiu demorar um pouco mais, falar um pouco mais. Após apresentar filme, atores e técnicos, de certa forma Tizuka assumiu em tom enfático a defesa prévia de ''Gaijin Ama-me Como Sou''. Disse que algumas pessoas estariam rotulando o filme como ''cinemão'', naquele sentido pejorativo que predispõe má vontade para com um modelo de produção mais cara.
O recado foi não apenas para parte da mídia que vê o custo maior de um filme brasileiro como pecado mortal (e imperdoável), mas indiretamente para o diretor Domingos Oliveira, que no primeiro dia da mostra fez a apologia da sigla que ele inventou, ''BOAA'', baixo orçamento, alto astral, como alternativa única para a produção nacional. ''Foram oito anos de luta, de esforço, de captação ininterrupta, vocês vão ver quantas empresas se engajaram no projeto, não foram só duas ou três grandes. Não tiramos dinheiro de filme nenhum. Acho no Brasil deve ter sim espaço para todo tipo de produção, de baixo, médio, alto orçamento, senão não seria uma democracia'', conclui ela.
E nas duas horas seguintes o público do festival viu onde e como foi aplicado, real por real, o dinheiro do orçamento exatos e contabilizados R$ 10.632.890,00, ''mais a minha vida'', como diz com frequência a diretora. ''Gaijin Ama-me Como Sou'' impressiona todo o tempo com seu visual requintado, imponente, como aliás convém a uma saga épica, como de resto seria adequado para emoldurar este significativo corte na história da colonização do país pela mão do estrangeiro que imigrou em busca de paz e trabalho. No caso, pela mão do ôgaijin".
O filme retoma personagens e situações da primeira parte, mas amplia o foco e redimensiona a cronologia, incluindo na trama capitaneada pela matriarca Titoe outros segmentos e informações. O novo filme de Tizuka é um épico que abrange quatro gerações. Em ''Gaijin Caminhos da Liberdade'' o espectador acompanhava, no início do século 20, os primeiros tempos dos imigrantes japoneses após o desembarque do ''Kassato Maru'' em 1908, a lida duríssima nas lavouras, o estranhamento com o entorno e a resistência diante de nova gente, novos hábitos, nova cultura. Já em ''Gaijin Ama-me Como Sou'', os descendentes, sempre através das mulheres e depois de integrados à nova vida, empreendem uma espécie de retorno às origens os dekasseguis, que vão para o Japão trabalhar, fazer o pé de meia e voltar em melhores condições financeiras. Aquilo que muitos de seus avós também tentaram, só que em sentido contrário.
O filme é bom, especialmente em sua primeira metade. Tem boa pegada como drama, uma deslumbrante direção de arte, trilha musical sublime de Egberto Gismonti. E há personagens ótimos, entre eles a Titoe vivida por Kyoko Tsukamoto (que já era dona do papel desde ''Caminhos da Liberdade'') e a Titoe ''batyan'' da revelação Aya Ono, que veio a Gramado para as honras devidas. Ao final, o p'ublico gostou e aplaudiu. Claro, o espectador de Londrina vai gostar um pouco mais, vai se ver, de alguma forma se identificar na tela e se emocionar com esta história dos japoneses daqui e da região, com certeza um pouco a história de todos nós. Um recurso que debilita vários momentos de alta tensão dramática é a dublagem imposta aos atores de outros países, o cubano Jorge Perugorria e as nipo-americanas Tamlin Tomita e Nobu Mc Carthy.
Na sessão de debate, ontem pela manhã, restrições da crítica à dublagem do cubano Jorge Perugorria e da nipo-americana Tamlin Tomita. Tizuka reconhece o problema mas o que tirou a diretora do sério foi a observação de uma jornalista quanto aos descaminhos do drama, isto é, depois de uma primeira parte bem administrada, o filme resvalaria para o terreno do ''melodrama descabelado''. Para Tizuka, o conflito do casal que resulta em separação tem o tom que ela considera justo para a situação da mulher que ganhou status de liberada, assume funções e não quer saber de dividir e nem sabe direito o que cobrar do companheiro, acuado no meio do tiroteio.
Provavelmente ''Gaijin Ama-me Como Sou'' teria recepção ainda mais calorosa, não fosse por um detalhe. O longa brasileiro que abriu a noite foi o impactante documentário ''Do Luto à Luta'', desde já o favorito para os principais prêmios da categoria. Boa parte da reserva de emoções da platéia foi canalizada para este filme simples na aparência, mas de enorme poder de comunicação. E de transformação. São só 75 minutos, mas suficientes para conter um impressionante libelo a favor dos portadores de Síndrome de Down, uma bela declaração de cidadania, uma exaltação irresistível às potencialidades, um convite ao engajamento numa ampla e irrestrita guerra aos preconceitos e estigmas. O filme, dirigido por Evaldo Mocarzel, reconhece o problema genético, mas oferece as soluções. Não sai daqui sem prêmios, com certeza.


