FESTIVAL - Experimentações musicais
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quinta-feira, 20 de julho de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Se você nunca ouviu, vai estranhar. Melodia, harmonia, ritmo tudo oscila fora dos padrões habituais, ou melhor, fora do que seus ouvidos se acostumaram a apreciar. O atonalismo, surgido no início do século 20, expandiu os horizontes da música rompendo com as formas clássicas e românticas que até hoje formam o gosto do público.
Tal ruptura será objeto de um concerto didático hoje, às 20h30, no Teatro Ouro Verde, dentro da programação do 26º Festival de Música de Londrina. O maestro Osvaldo Colarusso, a soprano Martha Herr e um conjunto de nove músicos sobem ao palco para interpretar as peças ''Pierrot Lunaire'' (Arnold Schoenberg), ''Três Líricas da Poesia Japonesa'' (Igor Stravinsky) e ''Três Poemas de Stéphane Mallarmé (Ravel).
Todos no palco são de Curitiba, onde estrearam o concerto em março desse ano, no Centro Universitário Positivo. Segundo o maestro, será a primeira execução das três obras em Londrina. Colarusso contextualiza a importância das composições: ''Os anos que precederam a Primeira Guerra Mundial são os anos de maior experimentação artísticas ao longo do século 20. Na pintura, houve a pintura abstrata; na literatura, James Joyce escreveu ''Ulysses''; e na música surgiu o que hoje em dia chamamos de música atonal, uma música totalmente nova, com uma rítmica diferente. Foi um momento de grandes transformações em todas as áreas, com a invenção da psicanálise e a revolução russa''.
Schoenberg compôs ''Pierrot Lunaire'' em 1912. Stravinsky, que no ano seguinte escandalizaria Paris com a apresentação da ''Sagração da Primavera'', foi assistir a um concerto da peça e ficou tão impressionado com o que ouviu que pôs-se a escrever outra peça para a mesma formação (nove instrumentos e voz), inspirando-se em haicais e textos orientais: ''Três Líricas da Poesia Japonesa''. Posteriormente, ao mudar-se para a França, falou com tanto entusiasmo de ''Pierrot Lunaire'' para o compositor Ravel que este também empolgou-se criando uma peça sob sua influência: ''Três Poemas de Stéphane Mallarmé''. A idéia era dar continuidade à obra original completando o programa de Schoenberg.
Colarusso observa que o experimentalismo musical do início do século 20 (particularmente nos anos 10) não se manteve nas três décadas seguintes, retornando apenas nos anos 50 e 60 para em seguida sucumbir a um novo ciclo de timidez estética. ''Vivemos hoje um período conservador, mas características como a atonalidade e a rítmica elástica e flexível que marcaram aquelas obras permanecem no repertório como possibilidades sempre abertas aos compositores'' afirma.
O Ensemble Unicemp, grupo que executará as peças, é formado por Maria Esther Brandão (violino), Gabriel Gorum (violino), Koiti Watanabe (viola), Maria Alice Brandão (violoncelo), Zélia Brandão (flautas e flautin), Marco Aurelio Koentopp (flautas e flautin), Jairo Wilkens (clarinete), Mauricio Carneiro (clarinete e clarone) e Paulo Piá de Andrade (piano). Segundo o regente, o público que comparecer hoje à noite no Teatro Ouro Verde será contemplado com um concerto informativo, pontuado por explicações detalhadas sobre as obras apresentadas e projeção de imagens ilustrativas.


