A diversidade que tem pautado as edições recentes do Festival de Londrina, tem hoje um de seus dias mais emblemáticos. De um lado, um grupo de bateria de escola de samba. De outro, uma turma dedicada à experimentação sonora com sucatas. Entre um extremo e outro, um concerto de orquestra sinfônica e recitais com formações camerísticas. Na véspera do encerramento do evento, a programação reforça a pluralidade de estilos e gêneros.
As atividades começam ao meio-dia, no Calçadão Central, com a apresentação dos alunos da oficina de Bateria de Escola de Samba. O curso durou um semana e atraiu mais de 60 entusiastas, alguns oriundos de escolas de samba locais e outros iniciantes que jamais haviam tocado um instrumento percussivo. ''Trouxe ritmos novos do Rio. Apesar das dificuldades, acho que o pessoal aproveitou bem'' diz Paulo Cezar Teixeira, o ''Mestre Paulão'', de 59 anos.
Responsável pela oficina, foi sua primeira participação no Festival de Londrina. Do Paraná, conhece Curitiba, em cuja Oficina de Música já ministrou o mesmo curso por três anos consecutivos. No Rio de Janeiro, atua há trinta anos como Mestre de Bateria. Comanda os bumbos, surdos, cuícas e tamborins da escola União da Ilha do Governador.
Já conquistou quatro estandartes de ouro no Rio e um em São Paulo. Já rodou o Brasil fazendo apresentações. No exterior, mostrou a potência rítmica brasileira na França e na Argentina. Em Londrina, Paulão não pôde desenvolver o curso como desejava, a começar pelo pouco tempo de aulas. ''Quem toca em bateria de escola de samba precisa exercitar todo dia. É uma atividade que exige muita coordenação motora. O problema é que o período da oficina é muito curto para que se possa fixar o aprendizado'' diz.
Ele salienta que os londrinenses ''ainda estão crus'' em termos de bateria. ''Muitos alunos são da periferia'' afirma ''e nem tinham condições de frequentar as aulas todos os dias por falta de dinheiro para pagar o transporte. Recebi apoio de algumas escolas de samba, que usaram vans para levar o pessoal. Mas nem todos contaram com essa ajuda. Acho que a Prefeitura poderia ajudar mais, dar mais suporte para esse pessoal''. O mestre está preocupado, inclusive, com a apresentação de hoje para o transeuntes do Calçadão: ''Será que todos os alunos vão aparecer?'' pergunta.
Com menos participantes, apenas nove, o Laboratório de Criação Musical também será testado em público hoje através da ''Instalação Sonora'', como foi batizada a apresentação. O espetáculo é de música contemporânea combinando performance cênica com ruídos extraídos de sucata. ''São quase esculturas sonoras'' define Aylton Escobar, coordenador da montagem. A Usina Cultural recebe a platéia às 16 horas.
O cenário reúne automóveis desmontados, carcaças de piano, molas, portas de carros, pneus, folhas secas, tambores de gasolina, aparelhos de prática de exercício abdominal, projeções, colagens de poemas concretos, ruídos de ventre de uma mulher grávida, ruídos de corredores de colégios e outras paisagens sonoras. A iluminação foi feita com tochas e luz cênica. ''Há uma ironia nesse trabalho, já que usamos o lixo que as pessoas desprezam como elemento de criação'' diz.
Os nove participantes do laboratório mostrarão duas performances. A primeira, intitulada ''Passagem: para pneus em ré Homenagem a Samuel Beckett'', será protagonizada por Carlos Henrique Bellaver, Carolina Gambarini Cunha, Cinthia Gervásio Haddad, Dante Mantovani e Deise Lilian Rezende. A segunda, batizada ''Fantasia Coral para Metais e Madeiras'' (baseada no ''Poema nº 1 para Improvisação Vocal'', de João de Carvalho), contará com Gustavo Mattos da Rocha João Paulo Toledo de Carvalho, Alexandre Sanches e Alexandre Ficagna.
Escobar gostou de trabalhar com a turma. ''Eles se empenharam muito e mostraram grande interesse em música contemporânea'' avalia. O maestro salienta que ''as escolas e instituições tradicionais preocupam-se demais em comprar instrumentos maravilhosos, deixando de lado a liberdade de criação''. E continua: ''Não estou dizendo que não se precise adquirir instrumentos, mas afirmo que o ensino deveria estimular também a fantasia e a imaginação das pessoas''. A instalação tem entrada franca.

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