O formalismo passa bem longe dele. Aos 40 anos, o maestro japonês Daisuke Soga convidado para reger o concerto de encerramento do 26º Festival de Música de Londrina (FML), hoje e amanhã, às 20h30, no Teatro Ouro Verde (leia mais sobre o assunto na página 3) prefere ser chamado de apenas ''Dai''. O afável regente, de currículo admirável, começou tocando piano, aos quatro anos, mas não tinha ''memória boa o suficiente'' para ser exímio no instrumento. A decisão de ser maestro surgiu no colégio e a família deu total apoio. Hoje é casado com uma violinista e tem a filha Karen, de quatro anos, que já dedilha o piano.
Pela primeira vez no Brasil, até o momento da entrevista ainda não havia experimentado feijoada, que conhece apenas pelo dicionário ilustrado que carrega na bolsa. Mas da caipirinha e de arroz doce já virou fã.
O convite para tocar no festival partiu do coordenador do evento, Marco Antônio de Almeida, no ano passado, após um concerto que Soga regeu na Itália. ''Estou muito feliz por estar aqui, só lamento que não tenha tido mais tempo de passear pela cidade'', comentou o músico.
É com delicadeza que ele conduz a batuta. Os braços são fortes (resultado de anos de natação), mas os movimentos leves e suaves. Para ele a música tem que chegar à emoção das pessoas ''sem agredir'', mesmo nos movimentos mais enérgicos, defende o ''maestro zen'', de sorriso maroto.
A seguir os principais trechos da entrevista feita com o ''regente Dai'' concedeu à Folha2. Detalhe: ele deu risada quando viu que o gravador utilizado era da marca Sony (trade gigantesca do Japão) e riu mais ainda quando soube que ele funciona há mais de dez anos sem nenhum problema técnico.

É a sua primeira vez no Brasil. Quais foram suas primeiras impressões sobre o País?
(risos) Esta é a mais problemática e matemática questão porque eu conheço apenas um quilômetro a partir do hotel em que estou...

Só trabalhando...
Sim, exatamente.

Mas e quanto às primeiras impressões das pessoas?
Muito boas, as pessoas são muito amáveis, afetuosas.

Eu observei durante o ensaio com a Osuel que você cantou alguns trechos da 'Missa de Mozart', que será executada. Cantar ajuda na sua comunicação com os músicos?
Eu não tenho uma boa voz. É só um pequeno trecho da música que cantei para a orquestra ver como era. Não ajuda na condução em si, mas serve para os músicos da orquestra perceberem as ''frases musicais''.

Você segura a batuta com muita delicadeza e seus gestos são suaves. É um estilo próprio?
A música que estava conduzindo é leve, solta. Não era uma música ''raivosa''.

E quando você tem que conduzir uma música ''raivosa'', como faz?
Depende. É como se fosse uma ''arte marcial'' na música. O objetivo não é ''quebrar ninguém''. De qualquer maneira, mesmo que a música seja enérgica, 'raivosa', tento dar um toque de gentileza na música, na arte em si.

A sua intenção é essa? Entrar com suavidade na alma de quem o ouve?
O objetivo é a comunicação humana, não 'quebrar' ninguém, não contribuir com uma guerra, não 'atacar' ninguém. O bom da música é poder emocionar.

Você estudou no Japão, na Romênia, em Viena, na Áustria, nos Estados Unidos...Quando pensa em música, de modo geral, você pensa que a sua forma de expressão é diferente ou é a mesma, independente da sua origem?
Os europeus estudam, encaram, hoje, a música como uma ciência natural, diferente de quando Bach fazia música há 300 anos...hoje a matemática está incluída na harmonia. Mas, como um sentimento natural, não há nenhuma diferença. Mas também devemos levar em conta que há muitas diferenças hoje em dia com relação às informações sobre música na internet, em livros de música, etc. Nós temos que aprender a escolher diante de tantas possibilidades e de tantas informações.

E o que fazer diante de tanta informação?
A música depende da experiência que você tem com ela. Nada acontece do nada, tudo tem um princípio, parte de uma memória boa. A humanidade tende a pensar que a arte pode ser criada do zero. Não é assim. Independe se você está no Japão, nos Estados Unidos, no Brasil, na África...O negócio é ter oportunidade de ouvir a música ao vivo, sentir a música, se apaixonar por ela ou até não gostar do que ouve e procurar outra coisa que lhe agrade mais.

Dá para aprender a gostar de música só de ouvir um CD?
Não. Tem que ser ''hand to hand'' ('mão na mão', em tradução literal). Você tem que ver, ouvir e sentir os músicos tocando ao vivo. Sentir junto com eles a emoção. E até tocar e cantar juntos. É diferente de ver um show pela televisão, pelo cinema, isso é quase fantasia. É diferente de ver ao vivo.

E as palavras em português que já aprendeu?
''Muito prazer'', ''tchau'', ''obrigado'', ''estou com fome'', ''estou muito cansado'', por exemplo.

E o seu nome ''Daisuke Soga'', tem algum significado especial?
Bem, 'Daisuke' significa 'homem grande' e Soga é um sobrenome comum de família.

E como prefere ser chamado?
Apenas 'Dai'. É assim que prefiro.

Como se fosse um apelido?
Sim. Eu detesto que me chamem de ''maestro''. Parece esnobe. Também não gosto quando me chamam de 'professor Soga', como no Japão. 'Dai' já está de bom tamanho.

E sobre o concerto especial, de encerramento?
Eu estou esperando por esse dia com todo o meu coração, mas sem ansiedade.

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